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Crônicas e Opinião:

Perfil de Gabriel Bocorny Guidotti

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Gabriel Bocorny Guidotti é formado em Direito e Jornalismo. Atuou em grandes assessorias de imprensa, como Detran/RS e Carris, além de ter adquirido experiência em diversas atividades na iniciativa privada.

Já participou da cobertura de mais de dez grandes eventos nacionais e internacionais. Trabalhou como repórter, relações públicas, assessor de imprensa, editor, revisor, cronista, cerimonialista, entre outras funções.

No currículo, carrega milhares de publicações em jornais impressos e digitais do Brasil e do mundo, bem como artigos veiculados em reconhecidos portais de comunicação.




Beleza na televisão

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 11 de setembro de 2016


Inicia-se o telejornal. Do lado de trás de bancada, dois âncoras, normalmente um homem e uma mulher. Eles se vestem bem, o cabelo está impecável. A maquiagem, em ambos, esconde eventuais rugas ou imperfeições. Cenário montado: tamanha produção dá uma suposta credibilidade. Dizem que pessoas vistosas se destacam num ambiente. A televisão do século 21 confirma isso.

O perfil engomado dos apresentadores de TV não é uma novidade. O que representa uma novidade é a escolha a dedo de repórteres que participam do programa. Dificilmente uma pessoa fora dos padrões ganha uma oportunidade, exceção feita, talvez, a profissionais mais antigos, cujas idades e experiência justificam sua presença. Antes da era digital, da era high definition, os jornalistas não eram tão bonitos e bonitas quanto são hoje.

Eles desfilam elegantes ternos. Ombreiras erigem um corpo esbelto, bem cuidado, de alguém que resguarda sérias preocupações com físico. Não há jornalistas cheinhos na televisão. No rádio e no jornal... bem, aí a realidade muda, pois aparecer não é foco. Nesses casos, basta a voz ou as palavras. Na TV, os repórteres abandonaram a casualidade típica dos jornalistas e assumiram uma vestimenta corporativa. O jeito que você se veste diz muito sobre você.

Elas, por sua vez, são beldades. Vestem roupas elegantes e usam saltos altos, de modo a endireitar a postura do corpo. A maquiagem reforça traços que já são belos. Há muito espaço, nesse contexto, para machismos velados. Programas esportivos adoram vulgarizar as mulheres. Colocam a beleza feminina como principal informação do esquete, independentemente dos conteúdos que elas possam compartilhar.

Talvez seja pela exigência da beleza na televisão que muitos jornalistas, de ambos os sexos, sejam aproveitados em programas de entretenimento. Logo na sequência estão estampando propaganda de grandes marcas de roupas, beleza ou maquiagem. Os investidores sabem que o belo dá audiência, mesmo que a audiência não se edifique somente com o belo. Há muita beleza por aí. Informação de credibilidade, nem tanto.

Cumpre aqui lembrar as mais recentes tentativas da televisão em aproximar sua linguagem à da internet. Os novos âncoras se destacam por outra distração: seus estilos esfuziantes. Noticiam crimes vestindo camisetinhas da cultura Geek. Não combina, embora façam um bom trabalho. Ademais, não há impeditivo ou regra sobre como se vestir. A regra deveria ser a neutralidade, não competir com a informação.

Agora, se por acaso o telespectador não estiver atrás de informação, mas sim de beleza, ele terá um prato cheio. Vai poder observar um desfile de marcas e produtos a serem adquiridos. O telejornal faz questão de, nos créditos, divulgar as empresas que ‘colorem’ seus apresentadores. Fatores alheios da notícia, afinal, qual o propósito de um programa jornalístico senão informar?




Onde seu coração está

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 28 de agosto de 2016


O lugar que faz você feliz é onde seu coração está. Seu coração está aonde? No Brasil? Em Portugal? Pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo. É muito comum confundirmos amor com desejo. Note que, para inúmeras pessoas, a única forma de se realizar é fugir do local onde se vive. Por quê? O que há de tão ruim lá? O desejo nos move. O amor... bem, o amor define onde devemos viver.

Felicidade constitui o objetivo de cada ser humano. Cada um busca a sua dentro de critérios da própria personalidade. Há festeiros de plantão que não vivem sem uma noitada boêmia. Há outros que preferem o conforto do lar. O local onde você está afere demais à arte de ser feliz. Mas não deveria. São apenas lugares no tempo e no espaço. Estão aqui hoje, estarão aqui daqui a milhares de anos.

Mas se o local não é importante, porque as pessoas estão sempre migrando? Acreditam, piamente, que há terras mais prósperas. Normalmente, questões ambientais insurgem diretamente. Qualidade de vida é a principal delas. Viver num espaço no qual a liberdade é plena ou em outro onde os indivíduos são acanhados por altos impostos, colapsos ambientais e medo constante?

O lugar não define a felicidade, pois ele pode estar indisponível. Você define a felicidade. Talvez apostar menos nas constantes e mais nas variáveis seja um caminho pacífico para ser feliz. Note que as pessoas não são perenes. Elas estão aqui com prazo determinado. E são elas que podem contribuir com conselhos, ensinamentos e apoio. O lugar não faz isso por você. Ele lhe vê crescer e morrer. Faz isso com milhões de outros indivíduos igualmente.

Desvincule a felicidade do lugar onde você está. Viva o agora, o momento, e de preferência junto aos indivíduos que ama. Esteja ciente de que sua vida é única. Um local não pode se tornar protagonista de viver. Viver faz o protagonismo. Nada do que se vive é banal, tudo vira memória no tempo. Assim se consolidam as gerações. A bem da verdade, só existe um lugar para a humanidade: o lugar onde estamos. Mais nenhum.




Personagens da beleza

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 15 de agosto de 2016


“A pessoa vistosa se destaca em um ambiente”. Frase corriqueira no cotidiano. O consenso é claro: ser bonito garante uma vantagem, pois independentemente de sua competência, você dará um motivo a mais para as pessoas lhe olharem com atenção. A busca exagerada pela beleza, todavia, pode se tornar um grilhão. Ser deu lugar ao parecer. O uso de máscaras esconde quem as pessoas realmente são.

Em uma academia qualquer, uma mulher malhava freneticamente. O ritmo frenético condenava a frequência a qual permanecia no ambiente. Muito tempo, desde cedo pela manhã. Tornar-se ‘malhada’ era sua ambição e, paralelamente, sua maldição. Sem perder a pose, se via obrigada a reforçar a pesada maquiagem a cada exibição. O suadouro fazia a máscara entrar em colapso. O personagem precisava ser mantido.

Sem a maquiagem, a mulher era uma; com, era outra completamente diferente. Isso afora o fato de ela sofrer para a realização das séries. A beleza nunca insurgiu com tanta evidência como nos tempos atuais. Estar fora do padrão é sentir-se excluído. Talvez seja essa a razão para tantas pessoas de idade desejarem permanecer jovens. Alguns casos são alarmantes: a cara está tão repuxada que se mostra incapaz de demonstrar sentimentos.

Ser bonito está arraigado na sociedade. Para tanto, surgiram nos últimos anos inúmeros tratamentos estéticos que tornaram o corpo humano uma verdadeira massinha de modelar. Muitos têm dificuldade de encontrar a beleza da idade e, menos ainda, aceitar que os anos passam sem que possamos congelá-lo. Se um estilo ou jeito é imposto, eis o desafio pessoal de cada um. Afinal, interessa o que você pensa de si ou o que os outros pensam de você?

A beleza, a bem da verdade, está ao alcance de cada de um. Não existe regra ou padrão. Existem, sim, pessoas que desejam lhe vender algo. Não há pessoa feia. Feia é a pessoa que se sente infeliz do jeito que é. Se você quiser mudar, faça isso. Mas ceda à otimização de traços naturais, isto é, evite a submissão a identidades artificiais. De outro modo, você nunca será feliz. Os padrões mudam constantemente. Você, por outro lado, é único para o resto da vida.




O olho

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 18 de julho de 2016


O grande Olho paira sobre nós. Ele está ali, registrando a última gota do orvalho, o espirro molhado de um idoso, o sorriso enigmático de um hipócrita. Não se engane. Você também está sob a égide dele. Todos os movimentos meticulosamente registrados. Não há saída. A saída seria desligar a tomada e ver a bateria morrer. Energia natural não insufla matéria mecânica, apenas orgânica.

Sem o Olho, as pessoas encontrariam uma ponte pacífica à liberdade. Observariam o mundo para cima, não para baixo. Observariam sem medo de ser feliz. Quem se importa com uma ruga aqui e outra ali? Por que essa insistência em esconder a realidade? É tão difícil assim aceitar as coisas exatamente do jeito que elas são? Assim começa uma disputa acalorada entre espaço ideal e espaço real.

O Olho é uma afronta à comunicação oral e escrita. Sua veloz imersão é inversamente proporcional à qualidade de seu conteúdo. Ele esparge uma imagem produzida, retocada e mentirosa. Isso quando não atua reconditamente, longe do conhecimento alheio, buscando comprometer a dignidade de uma pessoa. Um flash aqui, outro ali... gatilhos imagéticos também ceifam vidas.

O advento tecnológico formou raiz de uma frondosa árvore de possibilidades para o Olho. Ele habita instrumentos diferentes, mídias diferentes. Está em todo parte. Bolsos, óculos, maquinários diversos. Sua visão, entretanto, não é holística. Assiste com meias-verdades, sem ingressar no epicentro da razão. Compra e vende o que quer, recebendo e influenciando o desígnio das pessoas.

O Olho não é Deus. É uma criação humana dotada de incomensurável poder. E sendo uma criação humana, deveria reproduzir o olho humano. Não. O olho humano é limitado pela realidade. O Olho se permite editar, reconstruir, reformular, refazer. Locupleta-se de idealidade. Idealidade esbaldada, exalando de todos os cantos do planeta. Planeta que trocou o piscar de olhos pelo clique de um aparelho inanimado.




A fé não tem tempo

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 03 de julho de 2016


Por mais descrente que um homem possa parecer, há vezes em que toda força falha. Incapazes de disciplinar nossos sentimentos, buscamos auxílio em coisas que não podem ser vistas ou tocadas. Esse é o significado da fé: mover de montanhas, motivar legiões. Afinal, existe um Ser Superior ou somos vítimas de conspirações humanas que durante milênios nos conjuraram mentiras?

A religião, assim como supostamente nos deu o começo, nos trouxe também o final. Primeiro o homem é homem, depois vira herói e, milhares de anos após, se torna lenda. No último estágio, as disputas começam. Caminhadas e peregrinações transformam-se em palácios dourados. A palavra, simples e pura, é substituída por sessões de controle religioso nos quais princípios de fé se tornam uma força política dentro do Estado.

A ramificação das crenças ao longo da história foi tão tangente que todos os deuses são creditados como divinos apesar de, na verdade, todos serem pagãos. Afinal, o que é divino? Andar sobre as águas, profetizar o futuro e passar uma mensagem bonita para seus semelhantes? Nada disso. Ser divino é ser humano, no sentido benfeitor da coisa. Não precisamos de livros de regras. Quando a fé é pura, ela se sucede sozinha.

Religião, qualquer que seja, é feita de três elementos: um profeta convincente que espalha sua palavra; um campo atemporal no qual os melhores de nós merecerão a eternidade; e o juízo final. Pode parecer uma visão simplista, mas aí está a verdade. Apesar de violentas discordâncias, a única certeza de nossa espécie é que não existe um Deus certo e inequívoco. Como dito, todos são pagãos, até que se prove o contrário.

Assim, se alguém disser a você que siga essa ou aquela religião, olhe para o seu coração e pense no que você quer para a sua vida. De um lado, podem lhe dar um caminho; do outro, podem lhe fazer uma grande lavagem cerebral. Sua fé depende de você e das ações que fará hoje para colher um mundo melhor amanhã. Acredite, é o que Deus diria. A religião nos traz o começo e o final. A fé não tem tempo.




Monarquia de ourives

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 27 de junho de 2016


Não há pessoa no mundo que consiga fugir de uma monarquia incrustada no cerne político e econômico da sociedade humana. O Rei de Ourives é feito de ar. Envolve-nos, inebria-nos. Induz nossa liberdade de escolha. Ele possui uma capacidade de domínio inédita: a do convencimento por meio da propaganda massiva e científica. Não, não se trata de uma pessoa, mas sim de um conceito. Um conceito global.

O Rei de Ourives joga em todos os times ao mesmo tempo. Ele é francês napoleônico e inglês de Lorde Nelson. Não escolhe lados. Nega-se a descartar alguém por motivos de raça, cor, credo, religião, etc. Parece justo, não é? Seria, caso o elo que o edifica não se apoiasse no consumo. Todos são iguais, todos são consumidores. Contagiadas pela necessidade, todas as pessoas podem lhe trazer algum tipo de benefício.

Como consequência, a corrupção dos homens. A disputa mercadológica entre pequenas, médias ou grandes empresas mexe com a sociedade, de modo que a selvageria se desdobra num interminável jogo de posses e de poder. Os agentes do Rei de Ourives movimentam bolsos repletos de dinheiro; financiam campanhas de políticos em troca de benefícios após a eleição. Em suma, ampliam a desigualdade social.

O Rei de Ourives pode agir para o bem ou para o mal. Seu poder tem o condão de decidir o destino das pessoas. Quando um mundo melhor se torna o objetivo, o Rei será lembrado. O amor dos súditos estará estampado em sorrisos de satisfação. Quanto vale o amor de um grupo de desconhecidos? Todo o dinheiro do mundo. Essa deveria ser nossa maior lição, nosso grande legado. Infelizmente, o pensamento coletivo ainda não evoluiu a tais patamares.

A monarquia de Ourives, quando digna de reprimendas, precisa ter fim. O poder atribuído ao Rei é absoluto demais. Quando iremos aprender? Não aprenderemos nada até que uma camisa continue custando o salário de uma família inteira. Os pedintes sofrem enquanto os privilegiados desfrutam irresponsavelmente de abundância. Lutemos por uma sociedade mais justa. O Rei de Ourives não pode vencer.




Nossas estações

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 20 de junho de 2016


Existem quatro estações bem definidas. Elas variam. Às vezes, o tempo do calendário revela a primavera ao compasso que o estado ambiental é de inverno. Às vezes, um verão quente é rasgado por um inesperado frio, que surge dominando tudo o que vê, tal qual um grande conquistador. Engraçado falar sobre isso. Muito a aprender com estações a sociedade humana tem. As pessoas não passam pelas mesmas mudanças?

O dia a dia é recheado de oscilações. O homem que acordou alegre poderá dormir severamente estressado. É natural. Onde há pessoas convivendo entre si, sempre haverá diferenças, e as mínimas afrontas dão vazão a guerras nucleares. Ou seja, um indivíduo pode começar a manhã em um calorento e lindo dia de sol, mas pode finalizar a noite dentro de um frio e escuro dia de inverno.

Se existe “Mãe Natureza”, essa deusa pagã tem percebido que as estações estão se modificando – assim como as pessoas. O impacto de interagir com o próximo, na mente de cada um, é como uma mudança sumária de estações. Quem já não reclamou de um frio rigoroso que foi substituído por uma quentura que faz jus à mudança de “inVerno” para “inFerno”? Quem já não reclamou daquele colega de trabalho que parece ter um dom especial para alterar o próprio humor em segundos?

A verdade é que os seres humanos podem ser doces como a primavera, desabrochando ternura no ambiente. Rapidamente, tornam-se inseguros como o outono, não sabendo em qual lado ficar: ora o frio, ora o calor. As pessoas são exatamente iguais às estações. Se os novos tempos do capitalismo e da indústria estão afetando as formas bem delineadas do clima, estão modificando também a forma de convivência de nossa espécie.

Na natureza, há o derretimento das geleiras, que implica severas mudanças ambientais. Nos seres humanos, há o derretimento de ideias, que gera o perecimento de valores. O meio natural busca o equilíbrio entre seus agentes, evitando um cataclismo ambiental. Equilíbrio que falta à sociedade humana. Com tantas desigualdades, as pessoas conseguirão evitar um cataclismo social? Quatro estações: você ainda pensa que elas tratam exclusivamente de questões climáticas? Pense de novo.




As novas gerações

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 09 de junho de 2016


Antigamente, era mais fácil ser professor. Profissionais no quadro, cadernos dos alunos repletos de anotações. Mais antigamente ainda, nem cadernos havia, devendo os estudantes assimilar o conteúdo para não mais esquecer. O tempo se sucede. A geração de ontem, limitada pelo seu tempo, foi substituída por tantas outras que se acostumaram a derrubar limites e a construir um novo mundo.

Há alguns anos, desconhecia o conceito de ‘Geração Y’, mas descobri que ela representa todos os que vieram à luz em meados da década 80. Por nascer em 1988, achava estar na vanguarda do alfabeto, até que a classificação da Geração Z, daqueles que nasceram com o advento da internet nos anos 90, deixou-me para trás. Após essa sinergia da natalidade, não encontrei mais classificação alguma. O que viria depois da geração Z? A geração IPad? A geração Iphone? Que tal a geração Facebook?

Sabe por que antigamente era mais fácil ser professor? Pois não havia tantos concorrentes paralelos. Coleções inteiras de livros podem ser carregadas em um mísero pen drive. Conceitos desconhecidos desnudam-se a qualquer momento, em qualquer lugar do mundo. O conhecimento aparecer em uma simples pesquisa no Google. Em razão das inovações tecnológicas, terá o ensino tradicional sofrido com a obsolescência programada do capitalismo?

Se a Geração Z é complicada em termos de foco, cumpre aos docentes quebrar este paradigma. De fato, não é simples competir com tantos recursos à disposição dos alunos. Não se trata de uma questão que impera apenas em maquinários eletrônicos, mas da inserção antropológica da internet em nosso meio. De um celular, por exemplo, é possível falar com alguém no Japão. De um celular, entretanto, não é possível absorver o conhecimento prático de uma aula perdida.

Estar conectado 24 horas pode ser uma faca de dois gumes. Há um mundo real – material – pronto para ser descoberto. Às vezes vale mais ver com os próprios olhos do que observar através de uma telinha de cristal líquido. Às vezes vale mais ouvir de fato do que escutar por um fone de ouvido. Geração XYZ – a mistura de todas, como eu decidi chamá-la –, o futuro da humanidade está em suas mãos. Use o conhecimento do agora para aprimorar o relacionamento entre as pessoas. Jamais para distanciá-las.




Crises, muitas crises

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 23 de maio de 2016


O Brasil vive uma das maiores crises de sua história. A instabilidade política potencializa a instabilidade econômica, algo que anda ceifando o emprego de milhões de concidadãos. Como sobreviver à tempestade é a questão mais discutida nas rodas intelectuais. Eu, entretanto, percebi algo que a maioria ainda não notou. A derrocada não é exclusividade de uma nação, mas sim um fenômeno global.

A crise dos refugiados no Mediterrâneo patrocina vítimas todos os dias. A imprensa se acostumou a contabilizar números: dezenas, centenas, milhares de mortos. Entre as dezenas, centenas e milhares há histórias interrompidas. A matemática é cruel quando o assunto trata da vida de pessoas. A comunidade internacional, a passos lentos, move-se para dar abrigo aos migrantes. E o motivo da lentidão é simples. A Europa também passa por grave crise.

Li, recentemente, que o poderoso Estados Unidos passa por uma das maiores entressafras econômicas de sua história. ¼ dos jovens que deixam o ensino superior não conseguem emprego. O que dizer então daqueles que sequer tiveram oportunidade de frequentar a universidade. Em paralelo, cada indivíduo tem necessidades básicas. É preciso se alimentar, morar, viver! É necessário colocar os filhos na escola e prover-lhes uma boa educação. Tais essencialidades são indispensáveis.

Mas o mundo está em crise. Há problemas demais e soluções de menos. No Brasil, setores da sociedade torcem que a saída de Dilma Rousseff do poder revigore os investimentos no país, de modo que os empregos retornem. Até lá, os que não conseguirem se sustentar vão viver de quê? Da criminalidade, talvez. Os índices nunca foram tão altos. Do outro lado do Atlântico, em Portugal, vi gente idosa pedindo esmola na sinaleira. Colhi depoimentos de cidadãos oferecendo trabalho não em troca de dinheiro, mas em troca de comida.

Em suma, a crise é global. Como cuidar de tantas pessoas se a humanidade ainda não encontrou uma forma eficaz de realizar o essencial: viver em conjunto? Pequenas atitudes fazem a diferença, mas não suplantam a ineficiência de gestores públicos e de grandes corporações que, para manter os lucros altos, não hesitam em realizar inúmeros cortes. Pensar de um modo mais coletivo, esse é o desafio. Não há quem consiga proteger nossa espécie de nós mesmos.




Estranhos entre nós

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 16 de maio de 2016


Certa vez, após um dia cansativo de trabalho, fui informado que o vizinho do apartamento de baixo morreu. De imediato, tentei lembrar quem ele era, como viveu. O resultado de meu esforço cognitivo resultou no mais absoluto branco. De nada eu sabia. Soube apenas de sua morte e, no vislumbre de uma garagem condominial compartilhada, a memória nublada de um indivíduo que usava muletas para sustentar o corpo.

Tão perto e tão longe. A dois metros de distância nas alturas, o vizinho teve sua vida. Nunca ouvi sua voz. A mulher do falecido, por sua vez, me permitiu alguns contatos desagradáveis. Ela era uma pessoa ranzinza, em outras palavras. Fagulhas sempre se formam no convívio entre diferentes. Até que ponto o seu invade o meu? E aí começa uma discussão. Ela era desse tipo: sensível e antipática.

Contudo, lamentei pela perda do marido dela. Não é fácil deixar quem se ama ir embora. Na rua, comecei a observar os estranhos ao lado com mais curiosidade. Pessoas que não conheço, apenas vejo. Não sei de seus problemas e nem quantos morrerão no dia de amanhã. Só sei que nada sei e que tais indivíduos são meros coadjuvantes do meu dia a dia. Ocupam um espaço o qual eu só notaria se todos sumissem de uma hora para a outra.

Meu vizinho, agora falecido, estava próximo, mas longe ao mesmo tempo. Se me arrependo de ter perdido a oportunidade em conhecê-lo? Não. Nossos caminhos não se cruzaram. Ainda assim, desejo que ele esteja em paz. Acredito que as conveniências da vida nos separaram. Para a posteridade, fui respeitoso dentro do possível. Educação é o mínimo que se espera em uma sociedade dita civilizada.

Quem somos e para onde vamos é uma pergunta recorrente em meu imaginário. Meu vizinho... espero que ele tenha levado adiante um único momento de felicidade. Creio que sim, apesar da esposa tinhosa. Torço que, livre dos grilhões terrenos, ele consiga encontrar todas as respostas que o mundo não nos dá. Caso as respostas não existam, e nesse breve tempo de humanidade os céticos sempre tiveram razão, as oportunidades de agora se transformam em nosso destino. Aproveite-as ao máximo.




Heróis da palavra

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 02 de maio de 2016


A palavra poética é oportunista, pois permite interpretações. Com uma caneta na mão sou um artista e posso, se me utilizar das ideias certas, estimular multidões. Para quem pratica esse ofício, um dia chega aquele momento odioso em que o erro acontece. Você pega a referência errada, usa uma fonte fraca, ou fracassa, acidentalmente ou não, no português. Aí o Diabo entra em cena.

Errar é humano. Notar o erro é desumano, ainda mais quando o erro é compartilhado para milhares de pessoas. Você lê o texto 15 vezes e não repara no que estava bem na frente do seu nariz. Incrédulo, não acredita e se irrita. Às vezes, oscilações emocionais corrigem um trabalho. Em um dia, escrevo de um modo. No outro, olho para aquilo e digo: “onde é que estava a minha cabeça?”.

O texto é sempre passível de erros gramaticais. Erros contextuais, que podem virar acertos no dia seguinte, dependem do ânimo do autor. O objetivo é sempre o mesmo: a incessante busca pela verdade. Triste, já escrevi belíssimas memórias. Em outros momentos, o predomínio da felicidade não me permitiu produzir mais que duas linhas. Destarte, escrever constitui um campo de batalha. Inúmeros fatores influenciam no resultado.

Concomitantemente, escrever é terapêutico. O dom da palavra move montanhas, muda a história de um povo. Nunca duvide do poder de uma única letra. Ela comanda ideologias e forma novos fiéis. A palavra, mais complexa, é o bastante para a morte e a vida. Uma palavra determina a ascensão e a queda de uma nação. De palavras vive a nossa espécie. Escrever é conquistar corações, para o bem ou para o mal.

Procuro estimular o bem, criticando o que precisa ser criticado e maquiando as deficiências do mundo quando eu mesmo não as suporto. Figurar é uma saída atraente quando tantos fatos ruins acontecem ao nosso próprio arrepio. Mas é a vida, e ela precisa ser vivida. De outro modo, não haveria sobre o quê escrever. Não haveria, igualmente, os heróis da palavra grifada. E isso o mundo jamais poderia suportar.




Viver é perguntar

Crédito/fonte: Gabriel Bocorny Guidotti - jornalista e escritor - Data: 24 de abril de 2016


O mágico pavoneia grande habilidade. Muitos anos de estrada. A cada truque, olhares inquietos prospectam-se na sala de espetáculos. Ali, ele era o rei e todos obedeceriam ao torvelinho de ilusão. O show, entretanto, se encaminhava ao gran finale. De dentro da cartola negra, que parecia vazia até então, brota um enorme coelho branco, puxado pelas peludas orelhas. Um desfecho digno, dignitário de um grande artista.

Imagine o coelho como o universo. Ele é a soma de todos os astros, corpos celestes, criaturas, religiões. Na base dos pelos, como um grão de areia na imensidão, mas no epicentro da criação, a humanidade. Para tentar explicar a existência do coelho, a ciência. Para tentar explicar a criação do coelho, a filosofia, também conhecida como a capacidade de se admirar com as coisas.

O texto começou com um mágico, mas no gênese tudo frutifica por meio de uma criança. Vamos supor que uma família esteja reunida para um jantar. Pai, mãe e filho. De repetente, o pai começa a flutuar pela cozinha. A criança, de imediato, aponta com alegria: “papai tá voando”. A mãe, de costas para a cena, vira-se e solta um berro. Seu costume à gravidade fê-la perder a capacidade de se surpreender. Diga-se de passagem, um filósofo é uma pessoa que permanece a vida inteira com a mente aberta, exatamente como a de uma criança.

Voltemos ao coelho. No topo dos pelos, filósofos e crianças voam, praticando seus sonhos. De fora, observando displicentemente, os apáticos e indiferentes. Indolentes, não aceitam largar sua realidade. O cotidiano os consumiu de forma irreversível. Perderam a capacidade de se admirar. Enquanto isso, o mundo revela-se heterodoxo. A vida não é nascer, crescer e morrer, somente. É também perguntar.

Buscar respostas insufla o espírito e nos concede cada vez mais motivos para viver. Quando a rotina nos transforma em máquinas, aniquilamos nossa vontade de perguntar. Assim sendo, a capacidade de se admirar está morrendo no fundamento mercantilista. Precisamos enfrentar essa tendência. Pense, confronte ideias, respire a brisa da manhã. Imagine o segredo que reserva a cartola do mágico, conjecture sobre as origens do universo. Explore o grande coelho branco. A jornada será magistral.




Atenção: O conteúdo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna, este sítio não tem responsabilidade legal pela opinião, o que é exclusiva do autor.

Previsão de Tempo CPTEC/INPE

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