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Crônicas e Opinião:

Perfil de Luiz Carlos Amorim

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Luiz Carlos Amorim é Coordenador do Grupo Literário A ILHA em SC, com 33 anos de atividades e editor das Edições A ILHA, que publicam as revistas Suplemento LIterário A ILHA e Mirandum (Confraria de Quintana), além de mais de 50 livros.

Foi eleito a Personalidade Literária de 2011 pela Academia Catarinense de Letras e Artes e ocupa a cadeira 19 da Academia Sul Brasileira de Letras. Foi o representante de Santa Catarina no Salão Internacional do Livro de Genebra, com o lançamento de 3 obras suas, participação na antologia Varal do Brasil e com a divulgação de escritores que não puderam ir, com a revista Suplemento literário A ILHA.

Editor de conteúdo do portal PROSA, POESIA & CIA. e autor de 29 livros de crônicas, contos e poemas, três deles publicados no exterior. Colaborador de revistas e jornais no Brasil e exterior – tem trabalhos publicados na Índia, Rússia, Grécia, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Cuba, Argentina, Uruguai, Inglaterra, Espanha, Itália, Cabo Verde e outros, e obras traduzidas para o inglês, espanhol, bengalês, grego, russo, italiano -, além de colaborar com vários portais de informação e cultura na Internet, como Rio Total, Telescópio, Cronópios, Alla de Cuervo, Usina de Letras, etc.




Livrarias e cultura pelo mundo

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 29 de outubro de 2017


Muitas coisas têm me encantado em visitas a países da Europa, como Portugal, França, Itália, Espanha, Suiça. Mas uma coisa que não posso deixar de notar é a quantidade de livrarias na França, na Itália, em Portugal, na Espanha. Na Suiça, cruzamos com feiras do livro a céu aberto, em pleno centro de Genebra.

Em Portugal, que conhecemos melhor que os outros países, existem livrarias que atravessam diversas livrarias tradicionais e antigas, que evidenciam o gosto pela leitura do povo português de há muito tempo. A Livraria Lelo, na cidade do Porto, inaugurada em 1906, é uma das mais deslumbrantes livrarias do mundo. Em Óbidos, a Livraria de Santiago foi criada dentro da antiga igreja São Tiago e ocupa todo o espaço do templo. Tudo continua lá, o púlpito, o altar, os santos, harmonizando com os livros. A Bertrand Chiado, em Lisboa, é a mais antiga livraria do mundo. São duzentos e oitenta e três anos de cultura, num dos maiores espaços de livros. Por lá passaram os grandes nomes da literatura portuguesa, como Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Fernando Namora, entre outros. E há mais muitas outras, tradicionais e lindas. Mas o espaço é pouco.

Na França as livrarias também são inúmeras, a leitura é atividade das mais importantes para a maioria. Na Itália, até em Veneza as livrarias são numerosas. Em algumas das vielas vi diversas, uma ao lado da outra. Lá, também, vi livrarias a céu aberto.

Em Roma, ao lado do nosso hotel, havia uma belíssima livraria e, na volta do jantar, à noite, vimos que havia como que um auditório nela e um clube de leitura estava em plena atividade. Então leitura é uma coisa que faz parte do dia a dia das pessoas, na Europa, e pode ser até que o número de livrarias não pareça muito grande para quem vive lá, mas comparado ao que temos no Brasil, a diferença é bem gritante.

Cultura é um diferencial por lá, com certeza, e o livro tem papel deveras importante nisso. A história secular de algumas cidades, milenar até, como o caso de Roma e Veneza e algumas outras, é uma coisa que marca a gente. Não há como andar em Veneza sem pensar que estamos pisando em chão que foi pisado por personagens dos mais importantes da história do mundo. Não há como caminhar por Roma sem sentir a energia de personagens de centenas, milhares de anos atrás. É, verdadeiramente, caminhar pelo meio da história.

A cultura que se respira, que se pode testemunhar em lugares históricos, em cidades e monumentos tombados como patrimônios da humanidade é uma coisa que impressiona qualquer um.

A viagem de trem, de Roma para Genebra é de uma beleza indescritível. As vinhas, em Montreau, Sion e outras cidades pelo caminho, lembram o Douro, em Portugal. Mas há lagos, há os picos nevados, há a arquitetura, há também as árvores que lá ficam com as folhas mais amarelas do que em Portugal, França e Itália.

Viver essas visões, essas sensações, absorver toda essa beleza e toda essa informação, toda essa cultura não tem preço. É uma experiência única, que a gente quer repetir e repetir e cada vez continua sendo única.




Escritor-Leitor

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 22 de outubro de 2017


Sou fundador e coordenador de um um grupo literário há quase quarenta anos e faço parte de outro. Sou detentor da cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras, também. E, nós, participantes dessas agremiações, gostamos muito de ler, além de escrever, e lemos as obras de nossos pares, lemos os consagrados, até bestsellers. Não por obrigação, mas para conhecer o trabalho do próximo e deliciar-se com muita criação literária de boa qualidade que está sendo produzida por aí afora. Sou da seguinte opinião: se eu não ler, como esperar ser lido?

Com o advento da internet, a possibilidade de publicar, de colocar o que se escreve à mostra, para poder ser lido, é muito grande. Os espaços são muitos, os grupos de escritores nas redes de relacionamento, as revistas on line, os blogs e portais literários dão guarida à quase tudo que se escreve. Quem quiser publicar, o espaço virtual é amplo e democrático.

Não vamos entrar no mérito da qualidade, pois a internet aceita quase tudo. O que me tem assombrado é que, apesar do espaço virtual ser democrático e uma quantidade incomensurável de escritos ser publicada todos os dias, a quantidade de leitores não acompanha o ritmo da produção. E não falo do leitor comum, aquele que é só leitor, que não escreve. Falo do leitor escritor, aquele que escreve e que publica, mas que nem sempre lê os seus pares.

Existem muitos “grupos” no Facebook e colocam a gente neles sem nos consultar. De muitos eu caio fora. Mas dos grupos de poesia, de literatura, eu não saí, mesmo que me tenham incluído aleatoriamente. Afinal, é o nosso meio, são grupos de gente que escreve, como a gente. Então, já que estou nos grupos, resolvi interagir, publicando poemas, artigos sobre literatura publicados em jornais, crônicas. São dezenas de grupos, alguns com milhares de participantes. Sim, milhares. Alguns têm duzentos e tantos, outros quase mil, outros mais de mil membros. Afinal, pensei, se são escritores, são leitores também. E tenho encontrado algumas coisas muito boas nesses grupos. Tem muita coisa lá, nem sempre dá pra ler tudo, mas faço questão de ler um pouco e curtir, se gostar.

O que me assustou é que, verificando os posts, percebi que as curtidas são mínimas, comentários, então, menos ainda. Muito poucos. Os textos, poemas, etc. postados são muitos, mas o que parece é que as pessoas, os escritores, só colocam conteúdo lá, mas não olham o que foi colocado que não é deles, não lêem o que foi publicado pelos seus pares. Existem muitos posts que, infelizmente, não têm sequer uma curtida. E não é neste grupo ou naquele, é na maioria.

Estou acostumado com o nosso grupo da Confraria, tanto no Facebook como no Whatsapp, onde todos leem tudo e curtem e comentam. Então foi um choque perceber que muitos escritores, também no virtual – pois já percebi que no real isso também acontece -, escrevem e publicam, esperam ser lidos, mas não dão reciprocidade, não apreciam a obra dos outros escritores. É muito triste ver tanta coisa na vitrine e ninguém, nem mesmo os escritores que as produzem, dando importância a isso tudo. Uma pena.

Como ser escritor sem, antes, ser leitor?.




Aos poetas, poesias

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 16 de outubro de 2017


No dia 20 de outubro é comemorado o dia do poeta, esse ser estranho e singular, iluminado, que vê a vida com o coração e a alma, e tenta passar essa visão a todos aqueles que tiverem sensibilidade para recriar a sua visão. Então quero enviar a minha homenagem a todos os bardos deste imenso Brasil e do mundo, pois é das penas deles que flui a emoção e o sentimento dessa arte que se chama literatura.

É o poeta que torna esse nosso mundo, tão belo e ao mesmo tempo tão conturbado, um pouco mais sensível, é ele que desnuda a alma para que a nossa alma seja menos dura, menos intolerante, mais solidária, mais humana, menos violenta.

É o poeta que nos leva a contemplar o amor, que nos leva a pensar a paz, que nos lembra de que somos irmãos gêmeos da natureza e por isso mesmo precisamos amá-la e respeitá-la, para que ela nos proteja e não nos desampare.

Precisamos comemorar esse dia produzindo e lendo versos, todos nós, pois o mundo atual, tão corrido e tão violento, precisa da singeleza e do lirismo da poesia. O ser humano precisa cultivar a poesia, para não se deixar endurecer mais ainda, para não deixar de ser gente.

Ao contrário do que alguns pensam, a poesia é necessária. Como deixar fluir a alma através das pontas dos dedos, a não ser pela criação de um poema? A poesia é sentimento, é emoção, é alma, é coração. Como sermos humanos sem tudo isso?

A poesia é mágica, como já disse Quintana – e quem mais poderia dizê-lo? – como neste poema que toma a liberdade de transcrever:

”Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti...”

Que mais posso eu dizer? Rendo a minha homenagem a você, poeta, que não deixa morrer a poesia que existe, ainda, em nossas vidas. E viva a poesia mundial, e viva Quintana, e viva nós, poetas.




Sempre crianças

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 08 de outubro de 2017


Em artigo quase recente, eu dizia, em falando de filhos, netos, de crianças, enfim, que uma casa com crianças é mais lar. Uma amiga, também escritora, leu o artigo e comentou que não concordava. Ela acha que uma casa sem crianças pode, sim, ser um lar completo. Eu acho ótimo que o tema abordado seja debatido, porque nossas verdades são diferentes, a verdade de um não é necessariamente a verdade do outro e comparar nossas verdades é bom.

Então eu concordo, até porque as situações são diferentes. Os filhos da minha amiga transitam pela casa dela com certa frequencia, o neto também vem lhe visitar, e isso faz toda a diferença, o lar contiua não sendo só dela. É da família.

É bom esclarecer que o fato de não termos mais nossas crianças vivendo em nossa casa não nos faz pessoas trites, absolutamente. Somos felizes, mesmo na nossa casa tão grande, agora. O que nos faz falta talvez não seja, simplesmente, a presença de crianças, mas das nossas crianças.

A verdade é que, queiramos ou não, a época mais feliz de nossas vidas foi aquela quando vivemos a infância e a juventude de nossas crianças. Sentimos falta daquele tempo, sentimos falta da infância das nossas crianças, que continuam sendo crianças para nós, mesmo que agora sejam adultas e vivam suas vidas bem longe, além mar, em França e Portugal. Depois dessas infâncias em nossas vidas, nós, eu e Stela, não nos somos mais suficientes, pois tudo nos faz lembrar que a família não está completa, as crianças não estão, por isso a casa parece tão grande. Mas esperamos os netos. Eles hão de nos devolver toda aquela infância e toda aquela juventude que alçaram voo de nossa casa para encontrarem seus caminhos e nos deixaram tanta saudade.

Mas ter saudades é bom. Saudade significa felicidade, uma ou duas ou tantas felicidades que passaram pela nossa vida e que podemos recriar. O privilégio de ter nossas crianças significa isso, além de tudo o mais que eles significam para nós: felicidades que estão guardadas e que podemos rememorar.

Então, crianças, feliz dia da criança para vocês. Feliz dia da Criança para nós. Para todos nós, pois o fato de ter nossas crianças é tudo. E criança pode ser tudo o que quisermos e até o que não quisermos, mas que ela significa felicidade, isso não podemos negar. Porque criança é vida, é esperança, é renascimento. Criança é a nossa primavera.

Na verdade, poderíamos, sim, ser pais deprimidos e tristes, pois temos uma saudade vitalícia, antiga, de nossa primeira criança que chegou, mas foi embora muito rapidamente, num dia de outubro em que as flores de jacatirão começaram a desabrochar, há muitas primaveras. Mas a vida continuou e sabemos que nosso anjo primeiro nos guardou e ajudou-nos a cuidar de nossas crianças que chegaram depois e que nos dão muito amor, muito orgulho, estando já na vida adulta, ainda que para nós sejam apenas e principalmente, abençoadamente, nossas crianças.




Mulheres-poemas

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 01 de outubro de 2017


Como escritor, fundador e coordenador do Grupo Literário A ILHA, editor, ando às voltas com literatura quase toda a minha vida. E nesta caminhada, tenho visto novos poetas aparecerem, sempre, alguns bons, outros nem tanto, alguns melhorando o fazer poético e se tornando bons poetas, outros desistindo por falta de talento, dedicação, talvez por falta de ler mais e escrever mais, sei lá.

Então me integro à Confraria do Pessoas, grupo de poetas que começou com quatro de nós e hoje já somos nove. E percebi alguns detalhes nos integrantes da Confraria. Primeiro, a maioria é de meninas. Meninos, só eu e o Roney. Outro detalhe importante: das sete meninas, duas já são veteranas nas letras, a Norma e a Fátima de Laguna. Mas as novas poetas – poetisas, eu sei! – que coisa fenomenal! Elas já chegaram com a poesia pronta, com o olhar de poeta, com a alma de poeta, com o coração de poeta! Eu fiquei pasmo, maravilhado com a qualidade da poesia de nossas novas confreiras, com o talento, com a vocação poética. Eu me encanto – e não só eu – a cada novo poema que elas mostram. E não canso de me perguntar: onde estavam essas poetas tão poetas, tão cheias de poesia, todo esse tempo, sem que lhes soubéssemos da suprema inspiração?

Elas chegaram arrasando, algumas até com aquele receio inicial e natural de mostrar o que estavam poetando, e se poesiaram. Sim, elas se poesiaram, pois elas, verdadeiramente, começam a personificar a poesia. E eu agradeço a Deus por elas existirem, por saber delas, por poder usufruir de suas sensibilidades e lirismo, coisas que elas têm de sobra. E olhem que sou exigente, não estou sendo condescendente nem gentil: são poetas de verdade, que eu admiro. Estão aí para provar isso a audiência da revista Suplemento Literário A ILHA, que publicou uma edição com todos os poetas da Confraria, das páginas do Grupo no Face e das páginas de jornais.

Chris Abreu veio vindo de mansinho e se revelou gigante na sua magnitude poética. Sua serenidade constrasta com a sua poesia forte, consistente, universal. Chegou esbanjando poesia, sensibilidade, lirismo. A poesia flui dela naturalmente, com uma facilidade invejável. Ela se poesia. Como em “alongo os músculos / dos sentidos, / desprendo os ferrolhos do olhar, /…/ permito-me desabrochar…” Ah, Chris, eu também quero aprender a desprender os ferrolhos do olhar… Ou como em “Recria o arco-íris / com tuas cores exuberantes / fecunda nossa existência /com o pólen da paz.” Ou ainda “A vida se guarda / para na próxima alvorada / reverdecer.” Reverdeçamos, Chris. E por aí afora, tantos outros grandes versos e grandes poemas que seduzem a gente.

Denise de Castro, outra poeta de mão cheia, chega e leva a gente de roldão no impacto da sua tecitura poética. A poesia viva, pulsante, transbordando sentimento. Onde estavam esssas poetas que a gente não tinha vivido, ainda, a sua poesia grandiosa? Denise é plena de inspiração e de criação e sua poesia enleva a gente, que se encanta com versos como este: “A menina espera na janela / alguém que lhe faça amanhecer.” Ou como este: “Lanço-me no ar como um instrumento / semeando pequenos pedaços de sonora paz.” Verdade, você é um instrumento da paz, através do seu canto, através da poesia. Poesia assim: “Vou ali me encontrar com a poesia / Sei seu endereço: Rua da Solidão, esquina com Travessa da Alegria…” Ou “Atravesso o oceano / e me encontro com Pessoa… / Há em mim muito mais / do que as calçadas de Lisboa.” Há, sim.

Cláudia Kalafatás, com esse nome bonito de poeta, é poeta com certeza. E chegou jogando poesia de verdade, sentida e vivida, em cima da gente. Privilégio poder usufruir da sua criação, poder recriar a força da sua poesia. Mais uma grande poeta que se nos revela, trazendo todo um universo em versos, ritmo, sensibilidade e emoção. Como em “Valsa e rapsódia / comungam meu viver / sensibilidade e poesia / querem ocupar o lugar…”. Já ocuparam, Cláudia. Sua obra prova isso. E tem mais, muito mais, como em “Quero que meus olhos / contem aos teus / o quanto me és”. Quem mais diria isso dessa maneira? Só Cláudia. Como, também, em “Sorvo minha tristeza / para garantir que você não veja / que meu silêncio te quer por perto.” E, ainda, em “Me empreste a vida / que habita o teu olhar.” Pra quê, Cláudia, se há tanta vida e tanta poesia em seu olhar?

Rita Marília eu já conhecia um pouquinho antes da Confraria, já lhe tinha sorvido a poesia em goles pequenos. Mas espantei-me com a sua maturidade poética, descobrindo bem mais da sua poesia, com sua admiração pelo poeta Manuel de Barros, o grande poeta que acho que a ajuda a ser grande também. Rita é profunda e densa, como em “Vida é amor represado / Morte, amor trans-bordado…”. Rita, eu vejo e entendo “o brilho das estrelas / no seu olhar.” Ou então, dando continuidade à poesia do mestre: “Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.” Ou ainda: “Eu fiquei rindo porque minha irmã não sabe que chorar também faz rio.” A sua poesia também me faz rio, Rita, a transbordar pelo universo.

Marli Lúcia Lisboa, a poeta Bulucha, chega com a sua poesia pejada de romantismo para nos lembrar que a poesia é irmã gêmea do amor. A paixão pelo mar, a fé na vida, são outras fontes de inspiração. Bulucha não escreve de hoje e ao se juntar a nós, da Confraria do Pessoas, trouxe uma obra vasta. Na edição especial da revista Suplemento Literário A ILHA com os poetas do novo grupo, Bulucha não podia faltar. E após a leitura da revista, o professor Celestino Sachet deu destaque à poesia dela, consolidando o valor poético que já conhecíamos: “Duas almas, dois seres, uma vida! / Viver tão só, me dê a mão! / Águas que passam, água infinita / Águas tristes, águas frias, chuva de verão…” Com esse aval, não é preciso dizer mais nada. Só assinar em baixo da aprovação desse outro mestre.

E muito mais eu poderia mostrar dessas grandes mulheres poetas, que se revelaram tão fantasticamente para nós, seus leitores e admiradores. Há que lermos e sentirmos a sua obra.




Primaveras

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 24 de setembro de 2017


O Dia Internacional da Paz e o Dia da Árvore encontraram-se de mãos dadas no mesmo dia, dia 21 de setembro. Datas importantes, para refletirmos sobre o nosso mundo atual e o que estamos fazendo para manter azul o nosso planeta Terra. Falava com uma amiga, nesse dia, que precisamos, todos, fazer alguma coisa. Logo. Sei que sozinhos não conseguimos muito, mas há muito que podemos fazer para começar a mudar o mundo a nossa volta. Prestar atenção no outro, ver o que ele está precisando, dividir o pouco que temos, para proporcionar algum momento de alívio, de paz, que é o que todos precisamos. Cuidar para não poluir o meio-ambiente, não abandonar animais, pelo contrário, cuidar deles quando são abandonados. Tudo isso é pouco, mas se cada um de nós fizermos esse pouco, em nossas comunidades, imaginem quanta coisa pode mudar. Eu faço isso e vejo alguma mudança, mesmo que momentânea, na vida de algumas pessoas. É por aí que podemos começar.

E então, em seguidinha do Dia da Paz e da Árvore, vem a Primavera, que significa renovação da vida, recomeço, esperança num futuro com mais perspectivas, e ela me diz, com serenidade: “Calma, estou aqui, eu retornei, lembra? Ainda há esperança. Há vida.”

Então vejo as cores e o verde, o céu azul e respiro fundo. Ela tem razão. Estamos tendo um voto de confiança. Mas até quando? A próxima primavera virá? Será igual a esta? Estaremos aqui para vê-la?

Sim, eu sei, devo agradecer por esta primavera que está aí, é um privilégio poder recebê-la. Mas precisamos fazer alguma coisa para que no próximo ano tenhamos de novo uma primavera , para que possamos viver uma nova primavera tão colorida e tão iluminada como esta.

E a paz? Teremos uma primavera com paz? O mundo está em polvorosa, literalmente explodindo, o ser humano está cada vez mais violento, provocando mais e mais guerras, praticando o terrorismo, afundando na corrupção. Claro, não são todos, felizmente. E aqueles que ainda resistem é que poderão mudar o mundo, gente que ainda é gente, que tem o poder da honestidade e do bom senso, do amor ao próximo e à natureza.

A natureza está cobrando nosso descaso para com ela, para com o planeta onde nos foi dado viver: ao mesmo tempo em que nos dá a primavera, sinal de vida, de renascença, nos impõe fenômenos climáticos extremos, como furacões, terremotos, incêndios, enchentes, para nos lembrar que não estamos correspondendo a sua boa vontade.

De maneira que está aí a primavera. Se teremos outras, assim, cheias de cor, de natureza, de luz, depende de nós, de renascermos para ela, de repensarmos nossas ações, de usufruir do tanto que temos, de tentar retribuir. Vamos construir, desde já, as novas primaveras que virão? Só temos que ser mais humanos, só temos que voltar a ser humanos de verdade.




Ler e recriar

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 17 de setembro de 2017


Sempre defendi que precisamos lançar mão de toda e qualquer alternativa para difundir o hábito da leitura. E penso que não é só a escola que tem a responsabilidade de ensinar os leitores em formação a ter gosto pela leitura. A família também tem papel muitíssimo importante nesse sentido, pois o exemplo dos pais, principalmente, quase sempre é seguido pelos filhos. O livro em casa, o livro nas mãos dos pais, o livro perto da criança, ao redor da criança, como caminho para levar a criança a ter curiosidade pelo seu conteúdo e gostar de ler já foi assunto de outra crônica nossa.

Mas não é só isso. Muitos adultos não gostam de ler. Talvez por terem parado de estudar, ou porque foram obrigados a ler algum livro a contragosto quando muito jovens ou por nunca terem tido oportunidade, por qualquer razão, de conhecer algum gênero literário. Nesse caso, a empresa onde esse adulto trabalha pode ajudar, de várias maneiras. Ministrando cursos de aperfeiçoamento profissional, oferecendo bibliotecas e divulgando os títulos disponíveis, dando incentivo a talentos artísticos da casa, propiciando a volta aos estudos.

A propósito disso, lembro que tive um bom exemplo na empresa onde trabalhava. Para comemorar o aniversário da dita empresa, além do Baile de confraternização, foi instituído uma semana de exibição de obras da “prata da casa”. Os produtores de qualquer tipo de arte – música, literatura, artes plásticas, teatro, fotografia, poderiam mostrar o seu trabalho. Eu, claro, levei poemas, um em cada folha, com letras maiores, que foram colocados em um tipo de galeria, junto com poemas de outros funcionários, pinturas, desenhos, etc, ao longo das paredes, pelos corredores.

O que me surpreendeu, em primeiro lugar, foi o fato saber que pessoas que eu nem imaginava, escreviam e escreviam bem. Em segundo lugar, muita gente que eu não esperava que gostasse do gênero, veio falar comigo a respeito dos poemas expostos, provando que os leram e afirmando que gostaram. Fiquei feliz, não só porque meu trabalho os atingiu, mas porque consegui fazer novos leitores para um gênero quase maldito.

E resolvi escrever essa crônica por um fato que se me revelou curioso. Algumas colegas de trabalho, estudantes, sabendo do lançamento dos meus livros na Feira do Livro de Florianópolis e lendo meus poemas nos corredores da nossa empresa, pediram-me que lhes trouxesse pelo menos um de meus livros. Para uma delas, dei o livro “A Cor do Sol” – poemas, que não é o mais recente, mas é um livro do qual gosto, particularmente.

No dia seguinte, uma delas contava para todos do ambiente de trabalho, que na volta para casa, no dia anterior, ela começara a ler o livro no ônibus e quando se deu conta havia passado do ponto. Segundo ela, empolgou-se na leitura, ligou-se tanto nos poemas que acabou tendo que andar, pois desceu alguns pontos além do seu.

É muito gratificante ter esse feed back do leitor, saber que a nossa maneira de ver a vida, o mundo, está se identificando com o leitor, que a sua mensagem está chegando, que o objetivo está sendo alcançado.

Uma situação como essa, acontecida com alguém que dizia odiar ler, é muito significativa. Às vezes é muito bom saber que estamos no caminho certo. Que a nossa emoção está chegando ao coração de alguém.




LEITURA HOJE E SEMPRE

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 09 de setembro de 2017


Leitura é condição sine que non para que possamos aprender, adquirir cultura, para que saibamos falar e escrever, para que tenhamos uma vida mais digna e mais plena. Porque sem saber ler, não podemos estudar e se não estudarmos, como termos uma profissão, um trabalho que nos possibilite uma vida decente?

Nós, brasileiros, ainda lemos pouco, infelizmente. Por uma série de razões das quais já falei em outros textos. Mas existem professores do primeiro grau que, apesar do conteúdo programático cada vez mais apertado do nosso ensino fundamental e também médio, imposto pela educação oficial, fazem um trabalho fenomenal, conseguindo incutir o gosto pela leitura em seus alunos. Como a professora Edna, de Divinópolis, Minas, que cativa suas turmas de sétimas séries para a leitura e consegue lhes incutir, sem impor, o gosto de ler. Como a professora Mariza, de Joinville, que faz o mesmo trabalho e ainda distribui livros pela cidade. Como a professora Luciane, de Joinville, que também faz um trabalho excelente com seus alunos. E por aí afora, outros professores abnegados e extremamente dedicados como os três que tenho o prazer de conhecer.

Então, além de ser de primordial importância que as crianças convivam com livros desde a mais tenra infância, o fato de o estudante ter um professor ou professora que se preocupa com o hábito de ler de seus alunos completa um cenário que é ideal para termos jovens e adultos que gostem de ler. E que gostam de estudar, portanto, que gostam de adquirir conhecimento.

Para além do salutar e indispensábel hábito de ler, precisamos levar em conta que ler pode e deve nos dar prazer, pois além de nos preparar para a vida, a leitura pode nos fazer mais felizes, já que nos abre as portas, também, para a magia e para o encantamento. Leitura pode nos trazer felicidade? Pode. E de diversas maneiras. Algumas das quais já falamos acima.

Uma história bem engendrada que culmina com um bom final e nos faz refletir sobre nossa realidade, nossa e do próximo, é outra maneira. Pois uma história criativa, original, instigante, nos mostrando personagens e cenários fantásticos maravilhosos, gênero tão explorado por autores vários, nos últimos tempos, por exemplo, cativa a muitos leitores, leitores de todas as idades. Poemas que lêem a vida e o mundo de maneira diferente, nos ensinando a ver tudo por novos ângulos, com sentimentos e emoções novos, construídos com palavras fortes e com novos significados, também são outras maneiras de nos proporcionar uma boa leitura, uma boa interpretação ou recriação da vida acontecendo ao nosso redor. E além dela.

Então leitura é importante, é indispensável, sempre foi e continuará sendo. Precisamos ler mais, precisamos ler sempre, precisamos ler muito. Porque o futuro será sempre consequência de nossas leituras. Se nós não gostarmos de ler, perderemos o caminho para o futuro, pois só conseguiremos chegar a um futuro melhor através do hábito da leitura. Através dos conhecimentos adquiridos nos livros. Então, leitores em formação, leiam hoje, leiam amanhã, leiam muito, cada vez mais. O futuro está nas mãos dos leitores, dos amantes da leitura, daqueles que têm o hábito de ler. Porque leitura é insubstituível.

Se no passado líamos só os clássicos, hoje, ou de algum tempo para cá, temos uma gama imensa de contemporâneos da melhor qualidade. Brasileiros ou não, temos muitos autores excelentes para lermos. Então,vamos à leitura. Hoje e sempre.




O CHEIRO DA POESIA ou COMO SER BOCÓ

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 04 de setembro de 2017


A minha amiga poeta - poetisa, eu sei – Rita Marilia, recentemente me fez redescobrir o nosso grande, incomensurável poeta Manoel de Barros. Fazia um tempo que eu não lia o poeta e ela me trouxe de novo todo o encantamento que é mergulhar na poesia lúdica e ao mesmo tempo tão densa e profunda, tão verdadeira e original, tão lírica e tão sensível desse poeta tão poeta. Ela me ensinou a recriar a poesia do poeta com coração e alma de criança e eu então, descobri toda a plenitude, toda a completude da poesia de Barros. E eu agradeço muito, muito, por isso.

E Rita Marília, que de tanto amar a poesia e o poeta, acabou estabelecendo uma ligação extradimensional com ele, e eis que nos encanta com um texto que parece quase brotar dos dedos e da sensibilidade de Manoel de Barros. Essa comunhão, como diria ela mesma, me arrepia.

O poeta diz tudo, diz além de tudo, transcende a palavra e dá-lhe significados novos, inusitados, veste-a de sentimentos maiores e de emoções mais fortes. Tipo assim: “No descomeço era o verbo. / Só depois é que veio o delírio do verbo. / O delírio do verbo estava no começo, lá / onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. ” Quem mais escutaria o som da cor dos passarinhos, a não ser o poeta-criança? Quem, quem?

Ou então: “Eu penso / renovar o homem / usando borboletas.” Quintana, também, poeta. Acho que vocês dois andam fazendo poesia juntos, no céu dos poetas. Dêem um abraço em Júlio de Queiroz por mim.

Ou “Hoje eu desenho o cheiro das árvores.” E esse desenho não será nada menos que lindo. “Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — O verbo tem que pegar delírio.” Ninguém mais diria isso de forma mais poética. “Poesia é quando a tarde está competente para dálias. / É quando / Ao lado de um pardal o dia dorme antes. / Quando o homem faz sua primeira lagartixa. / É quando um trevo assume a noite / E um sapo engole as auroras.” Ah, poeta, esse é o conceito supremo da poesia.

E mais, e mais, e muito mais eu dividiria, que o poeta é amplo, é interminável. E eu fico aqui, me poesiando com a poesia desse mestre. Em tempo: poesiar quer dizer “ser poesia”. Eu tento. Não sei se vou conseguir, algum dia, pois a poesia já é Manoel de Barros, Pessoa, Quintana, Coralina, Júlio de Queiroz… Então, como me atrevo?

E eis que a poeta Rita Marília vem e se transmuta, sem deixar de ser ela mesma, e se poesia. Seu texto “Ser bocó” começa assim: “Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.” Preciso dizer alguma coisa? E nessa vibe, como diria Gabriel, vai nos encantando: “Quem é bocó corre atrás dos versos e salta por cima dos números ímpares. Quem não é, sabe contar até dez.” E termina assim: “Minha trisavó é vizinha d’um tal homem de barro chamado Manuel. Ela disse que ele disse que eu sou bocó porque minha alma não expandiu ainda.”

E eu, ah, eu me calo.Só pra sentir a poesia e a alma pulando de estrela em estrela...




OS ESCRITORES E SEUS PARES

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 27 de agosto de 2017


Li um artigo sobre literatura, há algum tempo publicado em um de nossos jornais e não posso deixar de registrar. Gostei do texto, lúcido e coerente, mas me detenho no fecho do mesmo: “A literatura de nosso Estado só será reconhecida e admirada nacionalmente, quando encontrar seu espaço dentro de seu próprio território e entre a sua própria gente. Precisamos conhecer para reconhecer.”

É a mais pura verdade. Não que não tenhamos grandes escritores catarinenses, reconhecidos nacionalmente, como Salim, Urda, Tezza, Flávio José Cardoso, Sérgio da Costa Ramos, Júlio de Queiroz e outros, mas a verdade é que o leitor catarinense não procura conhecer a obra de autores da terra. E isso não se refere apenas ao leitor comum, ao público em geral, que prefere comprar os Best-sellers a ler um livro de autor daqui. Os próprios escritores catarinenses não prestigiam o colega que publica sua obra.

Tenho visto lançamentos de escritores de literatura produzida aqui no Estado, nas feiras do livro aqui de Florianópolis, nos quais pouquíssimos escritores têm comparecido. Um que não falha é Celestino Sachet, grande escritor catarinense que conhece a literatura daqui porque a lê. Os escritores, no geral, parecem não prestigiar muito os seus pares.

Então o trabalho feito por algumas boas escolas, no que diz respeito a trabalhar escritores locais em sala de aula, lendo sua obra, fazendo trabalhos sobre ela, convidando os focalizados para interagir com os alunos, é de vital importância para que leitores em formação conheçam autores que, às vezes, moram ao lado, mas de quem nunca leram uma linha.

É esse trabalho de base, essa aproximação autor/leitor, que precisa ser feito pela escola, que vai fazer com que o leitor catarinense conheça e reconheça a literatura produzida aqui.

Já perguntei, em palestras para primeiro e segundo graus, quais os escritores da cidade onde estávamos, os estudantes conheciam. E ninguém levantou a mão para responder. Eu insisti que havia vários escritores da cidade escrevendo crônicas nos jornais locais, mas mesmo assim não eram conhecidos.

De maneira que a escola tem um papel fundamental nessa aproximação autor/leitor, nessa possibilidade de levar a obra do autor que reside na mesma cidade do aluno, até ele. Não estou dizendo que é fácil, porque sei que há muitas dificuldades enfrentadas pelos professores, até o próprio conteúdo programático, que não raro, deixa de facilitar essa tentativa de popularizar a nossa literatura.

Mas é preciso começar em casa. Casa que não tem livros é casa que tem criança com menos possibilidade de vir a gostar de ler. Ter livros diante dos olhos, ter livros nas mãos, mesmo antes de aprender a ler é condição sine qua non para que nossas crianças venham a gostar de ler. Eu já comprovei isso mais de uma vez.




A LITERATURA TRANSCENDE O LIVRO

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 20 de agosto de 2017


Sei que já falei do coquetel de lançamento dos livros da Coleção Letra Viva, publicada pelas Edições A ILHA, em homenagem as mais de três décadas de atividade do Grupo Literário A ILHA. Mas volto ao assunto, porque Célia, a nossa Célia Biscaia Veiga, cronista, poeta, atriz, editora, gente finíssima, foi inspirada, inspiradíssima na produção daquela noite.

Foi ótimo reunir de novo o grupo em Joinville – pena que nem todos os integrantes do grupo da região puderam comparecer – e relembrar tantos eventos que fizemos acontecer nos anos oitenta e noventa. Lançamentos como esse, realizado na Biblioteca Municipal Rolf Colin, que a gente fazia acontecer no Museu de Arte, no Arquivo Histórico, no Hall do Banco do Brasil, e em vários outros locais da cidade. E Célia recriou, melhor do que o melhor evento que podíamos ter realizado, uma noite de cultura e literatura para não esquecermos jamais.

O auditório montado na sala de leitura da biblioteca municipal ficou lotado de convidados. Depois de nos apresentarmos e de falarmos do Grupo A ILHA e dos seus trinta e tantos anos de literatura, a literatura que estávamos ali para oferecer nos livros que leváramos para lançar, começou a sair dos vários volumes da Coleção Letra Viva e tomou forma na voz e na interpretação do grupo de atores que Célia dirigiu.

Primeiro foi a crônica da Mary Bastian, "Há braços", que começou a ser lida para o público. E quando chega a hora que a autora narra a passagem em que ela viu jovens na praça com cartazes, dizendo que o abraço era de graça, três ou quatro pessoas se levantaram no meio do público e começaram a abraçar todas as pessoas da plateia. Foi emocionante. Depois foi a vez do texto de Célia, “Não é Comigo”, sobre o atendimento de Call Centers, que deixam a gente esperando horas e nunca querem ouvir o que temos a dizer. Foi hilário, foi muito engraçado uma pessoa ao telefone tentando se fazer ouvir, mas apenas ouvindo “vamos transferir a sua ligação”, “Não desligue que a sua ligação é muito importante para nós”, “Este assunto não é comigo”. Bem como acontece na vida real.

A minha crônica apresentada foi “Jacatirões no Jardim”. E a dramatização foi linda, muito original, pois enquanto ela era lida, algumas pessoas montaram uma árvore na sala e foram distribuídas para o público flores de papel crepon brancas, rosas e lilases, representando as flores de jacatirão e todos foram convidados a colar esses papéis coloridos na árvore. Assim, quando terminou a leitura, a árvore estava florida, coberta de flores de jacatirão.

Ouve declamação de poema, também, além do poema de Quintana que estava embutido na minha crônica.

Foi uma noite maravilhosa. Um público fantástico, gente que prestigia a cultura de gente da terra e que, com a criatividade e o talento da Célia em organizar, tornaram tudo muito agradável.

Uma colega nossa, de banco, que foi com o namorado, contou-nos da impressão dele. Nunca tinha ido a um evento assim, a uma sessão de autógrafos e não imaginava que podia ser tão agradável. Ponto para a Célia e o seu grupo de atores, que com sua dedicação, tornaram possível um encontro literário tão bonito: um encontro de arte, um encontro de artistas, pois o escritor também é um artista, como o ator, como o cantor, etc. Um encontro de escritores com seus leitores, um encontro de atores com seus espectadores. Magnífico.




O VALOR DOS LIVROS

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 13 de agosto de 2017


Hoje, falando de livros, mencionamos de novo que o brasileiro lê pouco, que o livro é caro e outros clichês sobre os quais acabamos martelando, inconformados. Minha amiga Norma, escritora que faz a crônica da sua terra, a capital catarinense, e o faz muito bem, com a sua prosa poética, pediu a palavra para dizer que não, que o livro não é caro. E explicou: compramos uma pizza, pagamos setenta, oitenta reais e num instante a consumimos. O livro, no entanto, pode sair menos que isso e dura muito, dura infinitamente. E um mesmo exemplar é lido por muitas pessoas.

Eu quase interrompi, dizendo que não, mas ela continuou embasando sua afirmativa e eu a deixei terminar, pois é importante que possamos pesar pontos de vistas diferentes e não é elegante ficar interrompendo o fio de pensamento. Mas não terminei o que queria dizer. Eu ia dizer que acho que o livro é caro, sim, mas não para mim ou para Norma. Concordo com ela, pois já comprei livros tão bons que o preço que paguei por eles pareceu nada. Mas o problema é que para a maioria da população o livro é caro, pois eles não têm dinheiro para comprá-lo. Pior: eles não tem educação para gostar de lê-lo. Se estivéssemos num país onde a educação – e, conforme o dicionário, incluo na educação o ensino – não fosse sucateada, destruída pelo próprio Estado que devia zelar por ela, fazê-la melhor, teríamos cidadão com mais cultura e mais conhecimento, que produziriam mais, teriam melhores trabalhos e melhores salários, uma vida melhor e mais digna e conseguiriam comprar livros, além de gostar de ler.

E se todos tivéssemos uma melhor educação, teríamos uma parcela muito maior da população que gostaria de ler, que teria o hábito de ler, e as edições seriam muito, muito maiores, consequentemente o livro seria bem mais barato. Pois quanto maior a edição de um livro, menor o preço unitário.

Se o Brasil pudesse oferecer um melhor ensino às suas crianças, teríamos melhore escolas, com conteúdos programáticos que possibilitassem mais tempo para aulas de leitura e literatura, espaço que hoje em dia quase não existe. É claro que existem alguns professores de português dedicados e abnegados que ignoram os conteúdos programáticos e conseguem incutir o gosto pela leitura em seus alunos, ao invés de obrigá-los a ler, o que causa aversão pelo livro, não raro. São poucos esses professores ou professoras, mas eles existem. Que levam a obra do autor da sua terra e da terra dos alunos para a sala de aula, estudam-na e depois trazem os autores para interagir com os alunos. Professoras como Mariza, Luciane, Edna. Aqui em Santa Catarina e em Minas e em outros pontos do país.

E infelizmente não sei até aonde podemos afirmar que um mesmo livro que compramos é lido por muitas pessoas,infelizmente. Queria que um mesmo livro, comprado por um cidadão comum fosse lido por toda a família, por dezenas de pessoas. Infelizmente, a família da pessoa que comprou o livro pode ser grande, mas quem lê pode ser apenas o comprador, na maioria das vezes. É claro que há excecões, porque aqui em casa, quando a filharada estava em casa, um mesmo livro era lido, às vezes, por todos os moradores. Quando o gênero coincidia com o gosto de todos, é claro. E é uma pena constatar, mas as pessoas têm receio de emprestar o livro, porque dificilmente ele é devolvido. Se ele fosse passado adiante, tudo bem. Mas isso nem sempre acontece, ele fica preso em uma gaveta ou prateleira qualquer. Então, pelo que tenho percebido em conversa com diversas pessoas que compram livros, é preferível doar, que os livros podem vir a ser lidos, oxalá, por mais pessoas. Para escolas, para programas que colocam o livro em lugares públicos para as pessoas lerem e devolver ao local de origem para que outras pessoas o levem. Mas como tenho visto, os livros saem das estantes, mas não voltam, porque esbarramos de novo na educação duvidosa que temos.

Queria ser mais otimista e ver de maneira diferente, mas a realidade bate de frente com a gente. Reafirmo, mesmo, que Norma tem razão: o livro não é caro. As pessoas é que não têm as condições intelectuais e financeiras para adquiri-los. O Estado é que não dá, para todos, a instrução e cultura suficientes para que os cidadãos saibam o valor da leitura. Mas podemos insistir em mudar isso, indo às escolas, nós, escritores, para divulgar a literatura. Isso pode começar uma revolução. Ou não. Depende de nós.




As faltas que os filhos fazem

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 05 de julho de 2017


Dia dos Pais de novo e a minha filharada está longe, longe, e não é fácil fazer a travessia com frequencia. Mas é a vida, a saudade traz as pessoas queridas para mais perto da gente, os corações dos pais está onde os filhos estão. No próximo ano eu vou lá e mesmo que não seja dia dos pais, será como se fosse.

As filhas se foram, a casa ficou enorme, cheia de saudade. Xuxu, a nossa Pinscher que quase completou vinte anos de idade também se foi e a casa ficou maior ainda, mas felizmente um barulho de criança permanceceu, por algum tempo, ainda, para preencher um pedacinho do dia, um pouco da nossa vida. Falo de Gabriel, o sobrinho que agora tem treze anos e já fica sozinho na casa dele, mas desde pequeno passou a tarde aqui conosco. A mãe dele trabalha o dia todo, então depois da escola, ele vinha ficar conosco até que a mãe o apanhasse no final da tarde, à noitinha.

Ele não é filho, mas é como se fosse. É ele que nos fazia companhia, que fazia com que nos sentíssemos pais postiços, uma relembrança do tempo em que nossas meninas eram pequenas, depois jovens e preenchiam a casa e a nossa vida. É um filho meio que emprestado, que veio num tempo em que precisávamos muito de alguém assim.

O pai de Gabriel não é tão presente, então o cara chato que estava sempre no pé dele era o tio e quem fazia tudo para ele, era a tia: fazia a comida, ajudava nos deveres, levava para a aula de inglês, de robótica, para a natação...

Mas apesar de chato, antiquado, de cobrar muito e de ficar martelando as coisas no ouvido dele, era este tio também que brincava, que fazia de conta que tinha a idade dele, que pagava mico para fazer companhia a ele como ele fazia companhia a nós, os tios que vão ficando velhos e solitários.

Então neste dia dos pais quero agradecer muito ao Gabriel, por ter estado conosco. Sei que ele não escolheu, mas a vida faz acontecer algumas coisas na hora e no lugar certos. Meu tempo mais feliz, meu e da tia dele, foi aquele depois da chegada das filhas. Não troco aquele tempo por nada. Mas elas cresceram e, adultas, foram viver a própria vida, como deve ser. E Gabriel veio para nos lembrarmos todos os dias de como foi bom o tempo com nossas crianças, ele trouxe de novo para dentro de nossa casa um pouquinho daquele tempo.

Ele faz aumentar a saudade? Faz sim, mas a saudade é que mantém nossas filhas cada vez mais juntinho da gente, é a saudade que conserva nossa filharada cada vez mais vivas dentro de nós, inquilinas vitalícias com espaço cada vez maior nos nossos corações.

Obrigado, Gabriel. Você está crescendo, a juventude está chegando e você também começa a seguir o seu caminho, mas este tempo que encheu nossa casa e nossa vida de infância vale tudo. Eu sempre disse que casa sem criança não é lar, mas vou ter que me acostumar com isso. E a casa vai ficando tão maior, tão maior…




A poesia em pessoa

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 30 de julho de 2017


O título é ambíguo, pode parecer que vou falar da Poesia de Fernando Pessoa. Mas desta vez, não. É sobre uma pessoa conseguir personificar a poesia. Viver a poesia. Ser a poesia.

Sempre achei que saber declamar um poema é um dom. Eu nunca tive esse dom. Escrevo poemas mas não sei declamá-los. Apenas os leio. E muito mal. Sei que uma boa declamação valoriza o poema. Em compensação, um poema mal dito, mal lido, faz parecer que ele é menos bom do que realmente é.

Então, reputo da maior importância a existência de bons declamadores. Existe, em Jaraguá do Sul, no norte de Santa Catarina, um concurso de declamação. A edição deste ano é a vigésima sexta e o concurso revela as pessoas que sabem declamar bem, sejam poemas próprios ou de outros autores. Já fiz parte do júri dese certame, por alguns anos, e foi uma honra poder constatar a revelação de talentos na arte de declamar.

De maneira que não é comum encontrar bons declamadores. É até bastante raro. Mas recentemente, em um sarau poético, tive o privilégio de conhecer uma senhorinha, que com seus noventa anos, deu um show de declamação. Poesia de cor, na ponta da língua, expressão corporal, voz no tom e nas nuances certas, interpretação impecável! Dona Marilde é pura inspiração e pura juventude!

Eu até poderia dizer que fiquei com inveja, mas na verdade é pura admiração pela performance daquela criatura fabulosa e linda, transpirando talento e poesia por todos os poros. Terminado o sarau, eu e Stela fomos conversar com ela e ela esbanjou simpatia e dinamismo, declamando, só para nós, mais outros poemas.

Quero chegar aos noventa anos assim, com toda aquela disposição, com aquele entusiasmo, com toda aquela vida explodindo também em mim, como em dona Marilde. Declamar de verdade é isso, minha querida Dona Marilde. Prazer em conhecê-la. Nem que eu viva noventa anos vou esquecê-la, porque a senhora é a imagem da poesia. Viva e perene poesia.




37 anos de literatura para o mundo

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 23 de julho de 2017


O Grupo Literário A ILHA , o mais perene do sul do Brasil, talvez do Brasil, assim como a sua revista, o SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA, completaram no mês de junho de 2017, trinta e sete anos de trajetória, de existência e resistência, de divulgação da literatura produzida em Santa Catarina, também do Brasil e de países lusófonos.

Nossa revista e nosso portal PROSA, POESIA & CIA., em http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br , ganharam o mundo e levam até leitores dos quatro cantos do planeta a nossa literatura. O Suplemento Literário A ILHA, na sua versão impressa online é lido em diversos países, por tudo o mundo. Nunca a nossa literatura chegou tão longe. Publicamos escritores novos e nem tão novos, brasileiros e de outros países, como da Suiça, México, Estados Unidos, Portugal, Índia, Russia, França, Itália, Espanha, Bélgica, etc.

A revista cresceu, seu número de páginas dobrou e continuará crescendo, pois o número de seus leitores também continua crescendo sempre.

Continuamos recebendo os novos escritores que estão começando a mostrar a sua produção e lhes abrindo espaços. Essa é a nossa missão: levar a literatura até o leitor, incentivar a leitura, dar a opção de conhecimento ao público leitor da nova literatura que está sendo praticada aqui no Brasil e pelo mundo. Um exemplo de espaço disponibilizado para os novos que estão chegando é mais uma edição especial do Suplemento Literário A ILHA, desta vez com escritores da recém constituída Confraria do Pessoas, revista lançada no mês de julho de 2017, exibindo a obra de nove poetas, em quarenta páginas.

Outros aniversários virão, para comemorarmos outras vezes a força da nossa literatura. Que continuará chegando até o leitor através do Suplemento Literário A ILHA, do portal PROSA, POESIA & CIA., do Varal da Poesia e de tantos outros projetos do grupo, como Poesia na Escola, Poesia no Shopping (uma releitura do Varal da Poesia), Poesia na Rua, Pacote de Poesia, Sanfona Poética, O Som da Poesia e outros.

Sem nenhuma ajuda oficial em todos estes trinta e sete aos de literatura, chegamos até aqui e continuaremos por mais um bom tempo levando literatura para os nossos leitores.




Dia da Operário da palavra

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 15 de julho de 2017


O escritor é um trabalhdor solitário, na construção de sua obra. É? Escrever é, realmente, um trabalho solitário, pois a nossa obra tem de ser construída por nós, sem a interferência de ninguém. Mas a literatura nos dá oportunidade de conhecer almas afins, aquelas que também escrevem e aquelas que leem o que escrevemos, que gostam de ler, que tem o bom hábito da leitura.

Então não acho que sejamos tão solitários, pois nossos pares são muitos e os leitores também, embora desejássemos que fossem em muito maior número. Conhecemos outros escritores em lançamentos, reuniões, encontros e nossos leitores através de contatos por redes de relacionamento, correio eletrônico, telefone. Ao comprar um livro ou ler uma crônica em um jornal, um poema em uma revista ou na internet, nossos leitores chegam até a gente, o que acontecia muito menos antes do advento da grande rede. Então viva a comunicação, mais um motivo para comemorar o Dia do Escritor, no dia 25 de julho.

Pela aproximação do escritor com o leitor, que é mais fácil nos tempos atuais, com todas as tecnologias disponíveis, podemos comemorar o nosso dia, neste 25 de julho. Já pela valorização da obra, pela remuneração do trabalho, a coisa é mais complicada. O escritor iniciante – e o não iniciante também – que consegue uma editora para publicar o seu livro, o que não é muito comum, recebe parcos dez por cento pelo seu livro, depois de pronto. Isso mesmo, dez por cento. E se não for um autor popular, já consagrado, ainda recebe os dez por cento em livros. Pior, hoje em dia praticamente não existe mais essa coisa de a editora publicar o livro e pagar dez por cento ao autor. Agora as editoras publicam o livro do autor novo se ele pagar a edição. É claro que há o autor de best-sellers, consagrado, que vive de escrever, mas esse vende muito e não ganha só os dez por cento.

Se o escritor bancar o custo da publicação do seu livro, ele mesmo terá de colocá-lo debaixo do braço e sair para vender, de porta em porta. Não haverá uma distribuição eficiente, para que o livro conste das livrarias, para que tenha uma divulgação abrangente e o leitor tenha a curiosidade despertada para a obra que veio a lume. Então a edição do autor é bastante sofrida, pois o autor paga a edição do seu livro e ainda tem que vendê-lo, ele próprio, para conseguir ter de volta um pouco do que gastou.

Mas escrever é um dom. Então vale a pena dar asas à imaginação, recriar o mundo com a nossa fantasia e criatividade, com emoção e sensibilidade, para que outras pessoas, os leitores, possam vê-lo, recriá-lo através de nossos olhos. Se somos escritores de fato – ou não – é o leitor quem vai dizer.

Meus parabéns a todos os escritores, de qualquer lugar do mundo, operários da palavra e heróis das letras. Hoje é seu dia. Hoje é o nosso dia. Que continuemos produzindo e levando boa literatura aos nossos leitores, mas acima de tudo, que possamos incentivar o hábito de ler em todos os cidadãos deste nosso imenso mundão de Deus.




"Esquecendo" livros

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 08 de julho de 2017


Eu venho “esquecendo” livros em aeroportos, navios, portos, em lugares públicos em outros países, inclusive, há vários anos. Foi uma ideia que surgiu inadvertidamente, sem nenhuma pretensão, mas que trazia prazer em fazer, pois é muito bom imaginar que alguém vai achar o livro e vai levá-lo para ler. E o que é melhor ainda, pode passá-lo adiante, depois, para que outras pessoas possam lê-lo, também.

Então fico sabendo, há pouco tempo, que minha amiga Norma, escritora e cronista da nossa Ilha de Santa Catarina, também faz isso há um bom tempo, sempre “esquecendo” livros por onde quer que vá. E ela até fica à espreita, às vezes, para ver a reacção da pessoa que vai achar o livro. A pessoa vai levar o livro, vai lê-lo ali mesmo e depois deixá-lo no mesmo lugar? Ela me disse que já se surpreendeu com o que viu. Por exemplo: uma pessoa apanhou o livro, inspecionou-o, olhou para os lados, como para ver se alguém estava olhando, colocou-o na bolsa e foi embora, de fininho. Como se achasse um tesouro. Não é interessante?

Dia destes, recebi uma mensagem de um outro escritor, o poeta Roney, que anunciava o projeto “Esqueça um livro e espalhe conhecimento”, já na segunda edição neste ano de 2017, ou seja: está instituído o “Dia de esquecer livros”, no dia 25 de julho. O projeto conclama a todos a esquecerem livros na padaria, no banco da praça, nos pontos de ônibus, dentro do ônibus, dentro do trem, dentro do metrô, no restaurante, em todo lugar público. Até sugeria um bilhete para se deixar no livro a ser esquecido: “Você achou este livro, agora ele é seu”. Eu acrescentaria, como fazia na página de dedicatória dos livros que “esqueci” por aí: Leve o livro, leia e, se puder, esqueça-o em algum lugar público para que outra pessoa venha a lê-lo.

Tudo isso para dizer que essa gesto de “esquecer” um livro pode fazer a gente muito feliz. E faz. Outro dia, numa reunião de escritores da Confraria do Pessoas, que fizemos em Santo Antonio de Lisboa, deixei no restaurante um livro com a mensagem sobre a qual já falamos: leia e deixe o livro num local como este, para que outra pessoa o ache e possa ler. Pois no último final de semana, em outro encontro da Confraria, uma nova adesão da nossa Confraria do Pessoas, a escritora Cláudia Kalafatás, com esse nome bonito e tudo, me dizia que foi ela a leitora que pegou o livro que deixei lá em Santo Antonio de Lisboa. E que ela já tinha copiado alguns poemas e já o tinha “esquecido” em outro lugar. Não é sensacional? Conheci uma das pessoas que encontrou um de meus livros, e ela me disse que gostou de alguns poemas e que até os copiou. É pra ficar feliz, vamos combinar.

E ainda ganhei de presente o livro da escritora, poetisa de mão cheia, que escreve coisas belíssimas como “Dimensão: Quero que meus olhos / contem aos teus / o quanto me és.”

Então, “esquecer” livros é fundamental. Quantos leitores lerão nossos livros “esquecidos”? Um, nenhum, muitos? Não importa. O que importa é que isso significa a oportunidade de ler, de gostar de ler, de ter e manter o hábito de ler para muitas pessoas. Significa incentivar a leitura. E leitura é tudo. É descoberta, é conhecimento, é entretenimento, é cultura. É oportunidade de uma vida melhor, pois estudar é ler, ler é estudar. E estudar é se preparar para a vida, é garantir para cada um de nós uma vida digna.




A poesia e os poetas

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 02 de julho de 2017


Assisti, há algum tempo, entrevista com uma poetisa, que comentava sobre o fato de a poesia vender pouco, de não ser publicada pelos editores das grandes editoras e que, apesar disso, é um dos gêneros mais praticados. Escreve-se muita poesia. E dizia ela que se a imensa quantidade de poetas desse imenso Brasil lessem poesia, além de escrevê-la, se comprassem livros de poesia, edições inteiras de livros desse gênero seriam esgotadas em pouquíssimo tempo. E a poesia não teria, como tem, esse estigma de maldição.

Pois eu havia publicado, antes disso, uma crónica a respeito, onde constatava que os escritores daqui da terrinha não leem os seus pares, não vão a lançamentos de livros de seus pares, não compram os livros de seus pares. Apenas alguns fazem isso. Por isso me identifiquei tanto com a poetisa que teve a coragem de dizer, em rede nacional, que os poetas deveriam ler mais poesia, que poetas deveriam ser mais poetas.

Poesia é o gênero literário mais praticado e não é de hoje. Com o advento da internet, com a democracia que ela representa como espaço para divulgação, passou-se a escrever ainda mais. É evidente que nem tudo tem qualidade, nem tudo é realmente poesia, mas essa é outra história.

O fato é que existe uma quantidade muito grande de poetas, em todo lugar há poetas, quase todo mundo escreve “poemas”. Mas nem todos leem poesia. Até por isso, talvez, a pouca qualidade de boa parte do que se produz.

Se prestigiássemos uns aos outros, indo a lançamentos, comprando livros, as publicações de poesia realmente venderiam muito mais. Mas não é só pelo fato de vender mais livros, pura e simplesmente, se bem que isso já conferiria mais respeito ao gênero. A verdade é que precisamos ler mais, ler muito. Se somos poetas, se gostamos de poesia a ponto de produzi-la, então temos que ler muita poesia.




A importância da literatura alternativa

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 25 de junho de 2017


Sempre defendemos o fato de que é através das publicações alternativas, de grupos alternativos, que muitos autores de talento são revelados. Houve época em que existiram muito mais páginas culturais e suplementos literários nos grandes jornais, isto é: havia muito mais espaço para a literatura nos meios de comunicação em massa. Além dos jornais, existiram bons programas na televisão, programas de rádio onde se declamavam poemas, etc.

O tempo foi passando e as páginas foram sumindo, os suplementos foram rareando e o que perdurou, mesmo, foram as publicações alternativas. Até os jornais culturais das imprensas oficiais dos estados sumiram, mesmo sendo custeados com recursos públicos e publicando normalmente os mesmos autores, quase sempre ligados à “cultura oficial”.

Então aplaudo o trabalho da escritora Teresinka Pereira sobre escritores, poetas, artistas e editores alternativos do Brasil, pois é um reconhecimento que eles merecem, por manter espaços valiosos em prol da divulgação do novo que aparece na arte literária.

Apesar de viver nos Estados Unidos há vários anos, ela mantém contato com grande número de agitadores culturais deste nosso imenso Brasil e sabe o que está acontecendo. E olhar de fora, ter uma vista panorâmica do cenário literário brasileiro estando longe, apenas observando as manifestações culturais, vendo com lucidez e reconhecendo o trabalho desses “heróis na batalha contra a ignorância, a inaptidão e a indiferença da política do governo” é, no mínimo, meritório.

Ela percebe que as revistas e jornais alternativos, publicados por pessoas ou grupos ligados à cultura, mas que não têm nenhum apoio da “cultura oficial”, são na verdade aqueles que dão impulso ao desenvolvimento da literatura brasileira.

E reconhece o valor destes abnegados e faz uma lista das publicações brasileiras existentes, num trabalho completo, dando, inclusive os endereços.

Transcrevo um trecho do artigo da escritora, com o qual não é preciso dizer mais nada: “Aos leitores de colunas literárias, dos suplementos e das revistas que contém poesia e artigos de literatura, não é necessário lembrar a importância dos mesmos. Embora nos países capitalistas sempre se fale de liberdade de imprensa e de pensamento, o que vemos é sempre o contrário do que dizem. O governo não faz investimentos na literatura porque diz que os escritores sempre pertencem à esquerda radical ou são anarquistas e usam a pena para falar mal dos políticos eleitos. E mesmo que assim não fosse, não há ajuda para publicações literárias.”

Nós do Grupo Literário A ILHA sabemos bem disso, nunca conseguimos sequer uma sala para nos reunirmos, mas estamos completando 37 anos de atividades neste mês de junho, sempre abrindo espaços para os novos e também para os não novos. E somos alternativos e independentes, sim, com muito orgulho. Nunca tivemos que escrever sob encomenda ou muito menos que modificar nossos textos, por causa de censura de órgãos públicos, como já aconteceu em outros grupos dos quais participamos e que tinham vínculo com a cultura oficial.




Cores no meu inverno

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 19 de junho de 2017


O inverno está chegando e meu pé de jacatirão (ou manacá-da-serra, que é como se chama essa variedade de jacatirão de inverno) ainda não começou a florescer. Está atrasado, em relação aos outros, mas tem botões, alguns anunciando desabrochar. É que os outros tantos pés de jacatirão, por aí, já começaram a florir há mais de mês, por conta da desorientação das estações, que não estão muito fiéis aos seus tempos, chegando antes, chegando depois, às vezes quase não chegando. Mas o importante é que meu pé de jacatirão-manacá está para estrear: sua primeira florescência. O outro pé de manacá-da-serra que eu tinha no centro do jardim morreu: eu o podei exageradamente, talvez, no ano passado e ele não brotou mais. Mas a natureza é mágica e, sem que eu plantasse, cresceu outro pé de manacá-jacatirão no jardim e ele está para estrear suas flores.

A verdade é que com o desequilíbrio climático, quase nada floresce no tempo certo, mas o meu manacá-da-serra, o meu jacatirão de jardim, não alinhou-se com os outros e parece que vai florescer na época certa. Só ele, parece, começa a florescer no inverno, como deve ser.

As primeiras duas ou três flores que desabrocham, com suas pétalas brancas, me deixam muito feliz, pois é como se a primavera visitasse a minha casa, em pleno inverno. E as pétalas vão ficando mais vermelhas, a cada dia, e novas brancas vão aparecendo, para passarem por um degradé e ficarem quase da cor do vinho. E o processo vai se renovando e as cores vão permanecendo.

Este ano não plantei amor-perfeito e petúnias, por isso meu jardim estava um pouco triste. Mas, por outro lado, já estou colhendo morangos, tenho bastante manjericão para temperar peixe, fazer molho pesto e defumar anchovas e tenho, também, hortelã, cana-limão, sálvia, guaco e alecrim, para fazer chá e enfrentar a gripe que vem por causa do frio. E salsinha, cebolinha, os temperinhos verdes que não podem faltar. Além de alguns pés de hibisco, que florescem fabulosamente em qualquer estação.

E ainda há tempo para plantar os amores-perfeitos e petúnias, para fazerem companhia aos jacatirões floridos e assim deixar mais colorida e feliz a minha casa. Dos dois pés de funcionárias que lá existiam, um ainda insiste em florescer. O outro, os mesmos bichos que comem minhas folhas de couve comeram ele todo, deixando só a raiz.

Mas nem ligo, porque meu jacatirão está cheio de botões.




A velha senhora fez aniversário

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 16 de maio de 2017


Completou mais um aniversário, a velha senhora, neste dia 13 de maio. Infelizmente, a data não foi comemorada como deveria. Sua comunidade, as pessoas que vivem na cidade a qual serviu, até que foi aposentada, aos cinquenta e seis anos, deveriam festejar-lhe a longevidade. Parece pouco, parece ter se aposentado ainda jovem, mas trabalhou muito a velha senhora, dando passagem ao seu povo, ao progresso, facilitando as idas e vindas do continente para a ilha e vice-versa.

Velha senhora que, apesar de aposentada, continua servindo, posando como principal cartão postal da capital de Santa Catarina. Triste e melancólica, a dama de ferro, se vista de perto, passando por mais uma operação plástica, mais uma cirurgia para poder receber, no futuro, os caminhantes da sua cidade. Sim, os caminhantes, pois ela está muito cansada, a idade lhe pesa e não pode mais suportar veículos, os automóveis, caminhões, ônibus, nem pensar. Depois da série de cirurgias que vem sofrendo ao longo do tempo, quem sabe, poderemos sentir todo o seu carinho e dedicação de novo, carregando-nos em seu seio? Estão prometendo a sua entrega aos cidadãos da Grande Florianópolis, pronta para ser usada, no próximo ano. Será?

Mas continua imponente e majestosa de qualquer ponto da cidade que domina, a velha senhora mais bela da capital.

Presto homenagem a você, velha senhora, em nome de todos aqueles que vivem na nossa bela Florianópolis, e quero que saiba que entendo a sua melancolia, você que nos deu passagem por mais de meio século por seus braços estendidos sobre o mar, um do lado do continente e o outro do lado da ilha de Santa Catarina. Sentimos falta de caminhar sobre o seu peito protetor, a nos dar segurança para chegarmos ao outro lado. As pontes de concreto que se perfilaram ao seu lado não têm a beleza e o carisma que você tem. Sabemos que já trabalhou demais, que merece a sua aposentadoria, mas está tão bela e sua solidão é tão dolorida que sonhamos ser acolhidos em teu seio novamente. Enquanto estiver assim, altaneira e soberana, teremos esperança. Sabemos que lhe são incômodas as cirurgias contínuas que sofre e pedimos perdão por isso, e esperamos que isso termine e finalmente lhe seja devolvida a a saúde para poder mostrar que é a velha senhora mais forte que todos conhecemos.

Parabéns, Ponte Hercílio Luz, patrimônio da bela e Santa Catarina. Esperamos que possamos comemorar muitos outros aniversários e, quem sabe, num futuro próximo, no meio dos seus longos braços abertos.

Você, que é patrimônio histórico e artístico de nossa terra, mas mais do que isso, é patrimônio do coração de todos nós.




As cores do inverno

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 30 de abril de 2017


O inverno está chegando, apesar de estarmos apenas no começo de maio. É, estamos no outono, mas o frio acabou de chegar. Aquele tempinho bom de colocar uma roupa mais quente, fazer pão em casa e deixar aquele cheirinho delicioso tomar a casa inteira, junto com o cheiro do café feito na hora, aquelas sopas maravilhosas que em outras épocas a gente não tem oportunidade de degustar, o chá perfumado e fumegante, etc., etc.

Dias de se aconchegar com os nossos entes mais queridos, com a família, com os amigos, pois na casa da gente ou na casa dos outros, é muito bom nos reunirmos, nos aproximarmos mais. Tempo de colocar todos à volta da mesa para convivermos mais, convivermos mais, nos aproximarmos mais.

O frio antecede a sua estação, e a gente já começa a esperar a chegada da tainha, o prato principal do inverno, aqui em Santa Catarina, talvez até no Brasil Os cardumes vem em junho, quando são pescadas toneladas, mas algumas já começam a aparecer. Já disse em outra oportunidade que inverno sem tainha não é inverno e o fato de ter esfriado nos traz a presença, ainda tímida, da vedete das nossas mesas nos dias frios do litoral.

Até o manacá-da-serra, o jacatirão de inverno, já está começando a florescer, também por antecedência, pois o tempo dele é junho, julho. Tenho visto pés de manacá-da-serra pejados de botões, uma abundância de promessas de cores no nosso inverno. Só faltava a azaleia não atrasar este ano e se adiantar um pouco para o inverno todinho se deslocar para mais cedo.

Mantas, cobertores, casacos, meias e, quem sabe, luvas, cachecóis, botas, todos a postos. O inverno está aí. E as cores também. Porque inverno não quer dizer ausência delas, vejam a quantidade de flores que temos na estação dos galhos secos por causa do frio: temos jacatirões (manacás-da-serra), azaléias, flamboiãs, ipês, bouganvílias, cerejeiras japonesas, orquídeas, cravos, begónias, lírios, gérberas, camélias, magnólias, etc., etc. O inverno é aconchegante e colorido. Inverno é vida.

Meu manacá-da serra não está cheio de botões, como muitos que tenho visto por aí. Mas tudo bem. No inverno do ano que vem, quem sabe? Ele é muito jovem, surgiu no meu jardim sem que eu o tivesse plantado, então é uma dádiva, um presente, e ele florescerá quando tiver vontade. Meu jacatirão de inverno que estava plantado no meio do jardim morreu, depois de grande floradas. Eu o podei porque estava enorme, mas devo ter feito alguma coisa errada, infelizmente. Mas o novo está crescendo e logo florescerá. E suas flores se juntarão às dos hibiscos, das azaleias e outras flores do meu pequeno jardim, em um inverno próximo. Não tenho pressa. O inverno sempre volta. As cores também.




A Confraria do Pessoas

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 15 de abril de 2017


Eu andava com muita saudade dos encontros semanais com o saudoso Júlio de Queiroz, talvez o maior escritor catarinense da contemporaneidade. Nós nos encontrávamos com o Júlio, três, quatro ou cinco pessoas, para conversar sobre literatura, sobre artes, sobre vida. E ele era um homem culto, experiente, inteligente, que sabia como ninguém escrever e contar histórias. Era, acima de tudo, um grande amigo. E encontrar com amigos é tudo.

Então andava com saudades de me reunir de novo com os amigos, regularmente: escritores, poetas, leitores. Então surgiu a Confraria do Pessoas, e a Norma, a cronista da Ilha, que organizou um sarau que provocou o surgimento da confraria, o Roney, poeta também da Ilha e a Fátima, poetisa de Laguna que aportou na Ilha, que estão envolvidos com essas novidades, me convidaram para integrar este encontro de pessoas que gostam de poesia, de literatura, de arte, de cultura e de Portugal.

Então tenho orgulho de fazer parte da Confraria do Pessoas. Por que do Pessoas? Como disse Norma, porque Pessoa é vasto, é múltiplo, é muitos. E porque amamos Fernando Pessoa e todos os seus heterônimos. Então sou uma das pessoas que compõe a Confraria do Pessoas. E isso me deixa muito feliz, porque os encontros semanais estão se sucedendo e cada vez mais pessoas tem aderido a ele. E temos ido a diferentes lugares da Ilha para engendrar outros encontros em novos lugares, não só da Ilha, para falar poesia, para consumir poesia, para dividir poesia. Poesia brasileira, poesia portuguesa, poesia lusófona. Literatura lusófona. É quase um sarau, em bares, restaurantes, em pizzarias e nem nós sabemos em que outros lugares. Lugares para lermos poesia ou até mesmo prosa em voz alta, para que até as outras pessoas presentes possam ouvir, se quiserem.

E falamos também de Portugal, além da literatura daquele país que todos nós do grupo amamos: falamos das suas cidades, das suas gentes, da sua cultura, da sua arte, de tudo que amamos na terrinha. E amamos muito aquele terra, tanto que na primeira reunião foi pensado um grupo no Face, com o nome de AMOR À PORTUGAL, onde postamos tudo o que se refere à terrinha, inclusive literatura. E mais simpatizantes da terrinha vão aderindo. Gente que já foi para lá, como eu, que vou pela sétima vez, e gente que quer ir o quanto antes.

Além da página no Face para dividir o amor por Portugal, foi inaugurada também a página da Confraria do Pessoas. Lá, na abertura da página, consta: “Na Confraria tudo é novíssimo de tão velho e a cada encontro experimentamos lugares, recebemos visitas, acolhemos um novo achegado e inauguramos jeitos mantido o propósito do Ativismo Poético com os dados proselitismos: nossa causa é a Poesia. Nossa religião, a Beleza. Nosso único partido, a Utopia de mundar o Mundo para melhor, pois pra pior já tem muita gente trabalhando. Sim, nós estamos querendo te convencer.”

De maneira que habemos encontros de poetas, novamente, para falar de livros, de autores, para dizer poesia, mesmo que não sejamos declamadores, um tributo ao nosso poeta mor Júlio de Queiroz, que continua presente em nossas reuniões, imortal, através da sua poesia e a todos os poetas do mundo.

Somos a Confraria do Pessoas. Amamos poesia, amamos Fernando Pessoa, o Pessoas, amamos Portugal. Se você também ama tudo isso, visite as páginas do Facebook AMOR A PORTUGAL e CONFRARIA DO PESSOAS. Quem sabe não nos encontramos fora delas?




A Páscoa e o meu avô

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 09 de abril de 2017


A Páscoa está chegando e chega bem a propósito, pois o mundo esta precisando de renovação, de renascimento, de libertação, tudo o que ela significa. O mundo está por demais conturbado, o ser humano está perdendo a sua essência e a violência e o ódio estão tentando calar a voz da paz, da harmonia, da tolerância. Então precisamos, todos, refletir sobre o sentido da Páscoa e procurar o caminho do renascimento deste nosso mundo, o caminho da união e do perdão, da capacidade que ainda temos de sermos generosos, da conscientização de que precisamos mudar.

Apesar de tudo isso, Páscoa me traz a lembrança, mais uma vez do meu avô Lúcio.

Digo que a Páscoa faz que ele se faça mais presente na lembrança, porque ele morava em Corupá, quando eu era criança, mas quando eu tinha uns 6 ou 7 anos ele mudou-se para Joinville. Ele era ferroviário, assim como quase todos na família, e a imagem dele chegando a nossa casa com uma cesta de vime pendurada no braço direito não me sai da memoria. Nossa casa ficava distante da estação ferroviária, em Corupá, mais ou menos uns dois quilômetros. Mas lá vinha ele, a pé, com a cesta cheia de guloseimas para nós, os netos. Ele trazia aquelas balas grandes e coloridas, do tamanho de um ovo de galinha, que hoje já não existem mais, trazia coco Indaial, um coco amarelo do tamanho de um ovo de galinha, também, com uma ou duas amêndoas dentro, do tamanho de uma castanha do Pará, talvez, coisa que já não vejo há décadas, infelizmente, e que na verdade se chamava babaçu. Trazia tucum maduro – uma fruta parecida com butiá, mas preta - a gente come a casca e o coquinho que tem dentro. Trazia goiabas, trazia maria-mole, trazia aquelas balas coloridas que eram cortadas em fatias grossas, que tinham um desenho no interior, nem sei se elas ainda existem.

Era uma festa a chegada do meu avô a nossa casa em Corupá. Acho que ele ficava colecionando todas essas frutas e doces para encher a cesta e, num seu dia de folga, tocar para Corupá para entregar tudo aquilo pra gente. Coisas simples, mas que eram oferecidas com carinho e tinham um valor incomensurável. Tinham um gosto de Páscoa, pois ele provava e renovava o seu carinho pelos netos.

Hoje os avôs não dão, absolutamente, esse tipo de presente. Hoje os avôs dão brinquedos eletrônicos, como jogos, smartfones, tablets, consoles, etc. Mas aqueles tempos do meu avô eram felizes e dá uma saudade muito grande.

Não lembro mais do rosto do meu avô, só lembro que ele era careca, tinha apenas uma coroa ao redor da cabeça. Acho que lembro disso porque também estou ficando careca e talvez fique igual a ele. E, engraçado, apesar de não lembrar do rosto dele, eu ainda o vejo chegando com a cesta no braço, cheia de oferendas. Como se fosse a Páscoa chegando. Saudade.




Até quando pagaremos a conta?

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 02 de abril de 2017


A reforma da previdência é inadiável, não se pode negar, outras reformas também são, e qualquer que fosse o presidente no poder teria que fazê-las, obrigatoriamente. Não importa se desse ou daquele partido, as reformas são urgentes. Aliás, já deveriam ter sido feitas há muito tempo, e esse é um ponto importante, que deve ser levado em conta: não gosto do atual presidente, acho que é, simplesmente, o “político” padrão da atualidade - e isso não é um elogio, absolutamente , mas tenho que admitir que o estado em que se encontra o Brasil hoje, quebrado, não é coisa do governo dele, a não ser pelo fato de que ele já fazia parte do governo anterior. O estrago já vem de bem antes. A contenção, a ocultação dos problemas, pelos últimos governos, o fato de esconderem a verdadeira situação de tudo neste país e de escamotearem, de maquiarem as coisas, de segurarem preços que precisavam ser atualizados, para parecer que tudo ia bem, tinha que resultar num estouro, num desmascaramento. Algum dia a verdade teria que aparecer, e apareceu. Estourou na mão dos próprios “governantes” que provocaram tudo, mas tiveram a sorte de tirar o corpo fora na hora certa e deixar o abacaxi nas mãos de outros sedentos de poder a qualquer custo, que também só querem fazer com que alguém pague a conta. E adivinhem quem é esse alguém? O povo, claro.

Então, aí está o país falido, roubado, acabado. E os “políticos” de plantão em polvorosa, projetando uma reforma da previdência que vai fazer o cidadão brasileiro trabalhar até morrer: para se aposentar, ele precisará contribuir por 49 anos. O interessante é que os políticos “desviam” o dinheiro público e quem tem que repor o que foi roubado é o povo, o cidadão brasileiro. O mesmo cidadão que pagou os impostos e taxas que compõe o dinheiro público, o dinheiro que enche os cofres públicos. Todos que “desviaram” recursos públicos deveriam devolver aos cofres públicos o que roubaram, com juros e correção. Mas não é bem o que acontece, muito pouco dinheiro “desviado” é recuperado. Alguns dos “políticos” que “desviaram” dinheiro público até estão presos, mas todos devolveram o que foi “desviado”? E os outros, que nem na cadeia estão? A solução é sempre muito fácil: sumiu o dinheiro, o povo paga de novo, paga em dobro.

E mais, os “políticos” no poder são rápidos em querer que os cidadãos brasileiros trabalhem por, no mínimo, 49 anos, mas não falam em cortar os salários milionários, privilégios e regallias de veradores, prefeitos, deputados, senadores, ministros, presidente, etc, que nós, o povo, pagamos. Se fizessem isso, um bom dinheiro permaneceria nos cobres públicos, para serem usados em favor do povo, como deve ser. E se não “desviassem” dinheiro público, então, o país teria dinheiro para tudo o que precisa ser feito na saúde, na educação, na segurança, na mobilidade e tudo o mais, e todos estariam empregados e consumindo plenamente, aumentando ainda mais a arrecadação de impostos e, consequentemente, de recursos públicos.

Perceberam que não falei a palavra corrupção, em todo o texto? Não precisou, ela está por trás de tudo e é redundante mencioná-la.




Nós e o outono

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 26 de março de 2017


O outono chegou, e chegou na hora certa. O descompasso do clima, causado pelo desrespeito ao meio ambiente e à natureza por parte do ser humano, não atrasou o verão, entrando pelo outono adentro, como em outros anos e a nova estação começou exatamente quando devia começar. Bônus para nós, quem nem merecemos.

Gosto do verão, mas esse último foi muito quente – quente demais – e é um alívio ver que com o outono o tempo ficou menos quente, já não é mais preciso ligar ar condicionado à noite, a chuva tem comparecido com mais frequência, as temperaturas estão agradáveis.

Finalmente chega o outono e a esperança é de que o tempo continue mais temperado, afinal estamos entrando na meia-estação. Agora, poderemos nos vestir melhor, poderemos fazer atividades várias sem suar em bicas, sem precisar estar ligando ventiladores, condicionadores de ar, etc.

As árvores, algumas delas, começarão a perder as folhas, a paisagem não será tão bonita como na primavera, mas em alguns lugares, pelo menos aqui pelo sul, temos plátanos, e eles ficam lindos nessa época. Temos, também, a quaresmeira, o jacatirão da época da Páscoa, que começa a sua florescência e deixa as matas coloridas e festivas, como se fora primavera.

E em junho, no final da estação, começa a florescer o jacatirão de inverno ou manacá-da-serra, as paineiras, as azaléias e por aí afora. E dá-se a passagem do outono para o inverno da maneira mais bela possível. Quem disse que o outono não é estação de cores?

Então, seja bem-vindo, outono, com temperaturas mais aconchegantes, com menos seca e com um pouquinho mais de chuva, com clima bom para aproximar mais as pessoas. Noites mais frescas, boas para reuniões para degustação de bons pratos, boas bebidas, bons vinhos.

Tempo de mais abraços, mais carinhos, mais amores. Tempo de aproximação, de mais calor humano, diferente do calor escaldante do verão. Tempo de ser feliz, de fazer feliz, de cuidar bem desse nosso Planeta Terra que merece mais do nosso carinho e atenção.




Água, a vida da terra

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 18 de março de 2017


Dia 21 de março é o Dia Mundial da Terra e o dia 22 é o Dia Mundial da Água. Tudo o que devemos dar a maior importância, pois temos que cuidar do lugar onde vivemos e da água, sem a qual não há vida. Como já disse em outras oportunidades, estamos cuidando muito mal do nosso planeta, do nosso meio-ambiente, do lugar em que vivemos. Estamos cuidando muito pouco ou quase nada da nossa água, nem diria só da água doce.

O que a Mãe Natureza precisará fazer para que nos convençamos de que estamos destruindo nosso meio ambiente, nosso planeta? Como diziam meus avós, ela sempre pega o que é dela de volta. Ainda mais em ela vendo que não estamos cuidando nada do nosso planeta, da água, do ar, do solo, não estamos levando a sério o fato de que se não tratarmos dele, ninguém o fará por nós. E tratar dele, tratar do meio ambiente é tratar de nós mesmos.

A água é vida, para nós, seres humanos. Se não houver água, nós não existiremos. E nós insistimos em poluir os rios e o mar, jogando neles lixo, desaguando esgoto, envenenando tudo.

Quando vamos aprender? Quando for tarde demais? Já não chega os tantos rios mortos que cortam as nossas cidades, alguns até escondidos em galerias, pois o ser humano sente vergonha, mas não se emenda.

A água de nossos rios está tão poluída que o tratamento pelo qual ela passa, para ir para nossas casas e podermos bebê-la, já quase não está conseguindo limpá-la, torná-la potável. Isso é muito grave. Já é temerário beber água da torneira.

Precisamos nos conscientizar de que, se inutilizarmos a água que ainda temos, ela não vai se filtrar sozinha para voltar para nós. A natureza é generosa, mas ela tem limites. E temos visto que ela se rebela, com tanto desrespeito, tanta irresponsabilidade.

Então, temos que nos unir em volta do planeta para proteger a água, para protegermos a Terra. Sem ela não há futuro. Mas isso todos nós sabemos. Então, por que não fazemos nada?




Desumanidade com os animais

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 13 de março de 2017


Sou um eterno admirador dos cães, talvez até mais do que por muitos humanos que existem por aí. E fico muito triste, indignado, até, em ver como maltratam os bichos. Há algum tempo, vi uma matéria na televisão sobre os cães que são abandonados diariamente pelas pessoas nas ruas das cidades. O telejornal flagrou pessoas abandonando, sorrateiramente, animais em ruas mais afastadas do centro, em qualquer rua e até em um canil que acolhe os bichos para serem adotados.

Um dos casos, uma cadela jovem de médio porte era colocada pra fora do carro, que saiu em disparada e o animal saiu correndo atrás. A volta ao assunto, no mesmo telejornal, foi justamente porque alguém reconheceu a cadelinha abandonada, encontrada atropelada, dias depois, toda machucada, quebrada, magra, sem quase poder andar, quase à morte.

Não dá pra entender a crueldade de pessoas que compram um animal de estimação com o qual, na maioria das vezes, alguém da família se apega. Mas em ele crescendo, ou ficando doente, ou em caso de viagem, a criatura é abandonada sumariamente.

O dono da cadelinha preta que foi atropelada está sendo procurado pela polícia e vai preso, espero, se for encontrado. É preciso coibir essa prática tão comum em nossas cidades, pois há um sem número de cães abandonados em nossas ruas, ficando doentes, sendo atropelados, morrendo aos pouquinhos e espalhando doenças.

Em outros países, como Inglaterra, Estados Unidos e outros, é crime a crueldade com animais e os envolvidos são presos, pagam multa e perdem a guarda. No Brasil até está escrito que maltrato à animais dá multa e prisão, mas não funciona, como muitas outras coisas por aqui.

E esse estado de coisas não é de agora. Lembro que, há uns dois anos, denunciei uma dona de quatro waimaraners, pois os cães estavam abandonados em uma casa vazia em uma rua paralela a minha, sem comida, sem água e doentes. Enquanto a dona não aparecia, eu levava comida e água diariamente. Fiz isso durante um mês, até que uma ONG levou a polícia até lá. Mas apesar de um dos cachorros estar esquelético e quase morrendo, a dona prometeu cuidar deles e a coisa ficou por isso mesmo. Os cachorros continuaram lá, até que sumiram todos, um a um. Não sei se morreram todos ou se a dona os realocou. A verdade é que hoje existem outros quatro cachorros lá, um dálmata e outros três viralatas, que pelo menos devem estar sendo alimentados, porque não estão magros demais.

Onde está a humanidade das pessoas que abandonam seus bichos de estimação assim, com tanta facilidade?.




Cores pelos caminhos

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 05 de março de 2017


Voltando de Santos, de um cruzeiro no navio Costa Fascinosa que não recomendo, em Fevereiro, fico extasiado com o espetáculo descortinado diante de meus olhos ávidos de cor e luz. Falo do jacatirão nativo que vejo explodir em flores no fim da primavera e no verão, aqui em Santa Catarina e no Paraná, onde os vejo sempre.

Sabia que eles existiam pelo Brasil afora e agora sou testemunha: eles são belíssimos e em grande quantidade nas matas cortadas pelas rodovias do norte do Paraná e principalmente em São Paulo. Depois de Registro e até perto de Santos o quadro é de uma beleza grandiosa: o jacatirão domina a paisagem, enchendo a mata verde de manchas vermelhas.

Considerava-me privilegiado em ter a profusão de flores de jacatirão no verão, no norte e nordeste da nossa Santa e bela Catarina, mas fico feliz de saber que o privilégio não é só nosso, que os paulistas também são abençoados pela Mãe Natureza com essas árvores generosas e majestosas.

Há, também, flamboiãs vermelhíssimos, pelos caminhos, além de primaveras enormes e muito floridas, mas nada que se comparasse aos jacatirões, que espalham suas incontáveis flores pelas florestas que se espraiam pelos lados das rodovias paulistas, paranaenses, catarinenses. E, quiçá, de tantos outros estados.

Impossível não vê-los e não admirá-los, árvores singelas e majestosas ao mesmo tempo, a balançarem seus galhos pejados de flores que vão do branco ao vermelho, algumas pendendo para o lilás.

Elas estão lá, no nosso caminho, mostrando que Mãe Natureza ainda nos ama, a nós, seres humanos, que desdenhamos tanto dela, que a menosprezamos tanto. Mas é preciso, repito mais uma vez, olhar e ver. Algumas coisas belas estão sempre ao alcance dos nossos olhos, sempre no nosso caminho e, de tão presentes, acabamos não vendo. Olhamos e não vemos. Temos de olhar e ver, para atribuir-lhes o devido valor e preservá-las, pois do contrário podem não estar mais lá amanhã.

Então, irmãos de todos os lugares, verão é tempo de jacatirão, de flamboiã, de primaveras floridas. Não deixem de vê-los. São espetáculos gratuitos e enchem os olhos e o coração.




Noticias de Portugal

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 24 de fevereiro de 2017


Duas coisas boas, nos últimos dias, me remeteram à terrinha, aquela Portugal linda e única do outro lado do oceano. Tenho saudades muitas de Lisboa – a cidade da luz única: Luzboa; Porto, Coimbra, Sintra, Extremoz, Douro, Óbidos, Évora, Guimarães e tantos outros lugares por onde passei.

A primeira coisa, a notícia de que a cantora brasileira Adriana Calcanhoto, grande estudiosa da poesia e entusiasta da poesia cantada, está na nossa querida Portugal, para dar uma série de masters classes na famosa Universidade de Coimbra.

Adriana nunca dissociou a poesia da música. Isso me faz pensar que, quando o Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura – e ela já tinha incluído Dylan na sua aula de trovadores medievais e contemporâneos – eu não concordei muito com um cantor ganhando um Nobel de Literatura. Pensei que deveria haver alguma obra de algum escritor, por todo este mundão de Deus, que merecesse o prêmio. Mas agora percebo que a Academia pode ter sua razão, pois Adriana Calcanhoto me abriu os olhos, com sua paixão e seu conhecimento da poesia cantada, me lembrando que muitos poemas da melhor qualidade são cantados todos os dias, mesmo quando não são poemas de poetas consagrados musicados. Que algumas letras de músicas não são apenas letras, mas poemas.

Li a entrevista de Adriana Calcanhoto no Diário de Notícias de Lisboa, entrevista alentada, grande mesmo, mas deliciosa de ler. Ou “ouvir”. Fiquei triste quando acabou. Senti orgulho de ser brasileiro, Adriana. De ser poeta. Tenho só um poema meu musicado, gravado em Recife, mas vou pedir para o Pierre Aderne, cantor e compositor da família que faz sucesso no Brasil, em Portugal, nos Estados Unidos, na Polônia, no Japão e por aí afora, para ver se tenho algum poema bom o bastante para ser musicado. Como Adriana nos ensinou, poesia e música tem tudo a ver. Eu, disse, uma vez, num poema, que a música é a poesia do som. E Adriana confirma.

Segunda coisa boa: no dia do meu aniversário, 16 de fevereiro, ao receber os parabéns da filha Daniela e do genro Pierre Aderne, eis que ganho de presente um concerto, ao vivo, via Facetime, direto de Lisboa. Pierre cantou o “Parabéns a você” ao violão, em ritmo de fado e mais, cantou uma das músicas do seu novo CD, “Da Janela de Inês”, que nem tinha sido lançado ainda, seria lançado no dia seguinte, 17 de fevereiro. Foi muito lindo. Obrigado, Pierre. Pierre é francês, mas cresceu no Brasil, então é um francês muito brasileiro, é um carioca autêntico. E ele leva a música popular brasileira, de Portugal e de outros países pelo mundo. No Brasil, teve vários programas produzidos e apresentados por ele no Canal Brasil, como “Música Portuguesa Brasileira”, “Rua das Pretas”, “Cantoras Portuguesas”, etc. O novo CD de Pierre, “Da Janela de Inês”, pode ser pedido nas lojas Fnac.

O concerto ao vivo de Pierre foi um daqueles presentes tipo “a coisa linda do dia”, como diria minha amiga cronista Norma Bruno, que segue daqui alguns meses para Portugal, para passar uns meses lá e ser a cronista do Porto, também. Acho que vou também. Adoro aquela terrinha, adoro Portugal. Vamos passear por lá com Norma, para instigar-lhe ainda mais a inspiração. E escrever a continuação de "Portugal, Minha Saudade", quem sabe.




Ler livros

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 19 de fevereiro de 2017


No lançamento do meu segundo livro de contos, recebi vários cumprimentos – verbalmente, por telefone, por carta, por todos os meios disponíveis na época, de pessoas que fizeram questão de se pronunciar a respeito, dar a sua opinião. Excelente, pois o termômetro para medir a qualidade do nosso trabalho é o leitor. Passado algum tempo da euforia do lançamento, recebi outras duas ligações que se destacaram e me fizeram escrever esta crônica: a primeira, de uma pessoa que eu não conhecia e que, tendo comprado o livro, ligou para dizer que se identificou com a verossimilhança dos meus textos, que gostou da maneira como abordei a realidade do cotidiano das personagens – personagens que poderiam existir do lado de cá, de fora dos livros. E um outro, de outra pessoa que eu também não conhecia, muito zangada, indignada, até, porque num dos contos havia uma personagem com características e situações que guardavam semelhança com alguém de sua família.

O mais importante disso é a comprovação de que aquelas pessoas leram os livros. Talvez isso não esteja acontecendo, ainda, com a frequência que desejaríamos, mas já está acontecendo. Se o leitor entra em contato com a gente para comentar o obra, é porque realmente leu o livro.

Devagar, com bons livros, com boas aulas de leitura e literatura nas escolas, boas bibliotecas, boa literatura infantil – coisa que com certeza temos em nosso país – e, principalmente, colocando a criança em contato com livros desde muito cedo, vamos conseguindo atenuar aquela história de que brasileiro não lê. Poderia ler mais, se o preço do livro fosse menor, mas existem as bibliotecas municipais, de escolas, de associações, de clubes, existem os sebos e as feiras, onde ou não se paga nada para emprestar o livro ou se paga bem menos para adquiri-lo.

E se nós, autores, levarmos até o leitor uma literatura que se identifique com ele, que tenha mais em comum com ele, que divida com ele espaço, tempo e costumes, sem que com isso tenha que colocar de lado a criatividade e a imaginação, estaremos colocando o livro mais perto do público consumidor e o distanciando de pseudo-literaturas que grassam por aí.

É verdade que chegar até o leitor não é fácil, pois publicar um livro esbarra em diversos e enormes obstáculos. A edição própria é muito cara, pois papel e impressão são itens bastante caros e a distribuição é inexistente.

Resta a democracia da Internet, que tem possibilitado a publicação e projeção de muitos novos poetas e escritores. O meio eletrônico é barato e de fácil acesso. O e-book, livro electrónico, também está se firmando. Há também a publicação de antologias pelo sistema de cooperativa, onde os autores se reúnem, dividem despesas, resultados e trabalho, fazendo lançamentos e colocando o livro debaixo de braço para oferecê-lo. O preço do custo do livro é dividido entre os autores que publicarão nele e o número de exemplares publicados, idem.

A divulgação dos autores novos ou regionais é muito pequena, os veículos de comunicação não dão a cobertura esperada para motivar o autor a continuar produzindo ou o leitor a procurar ler. Aos poucos, no entanto, esse cenário parece que vai mudar. A Internet, como já dissemos, está aproximando mais o autor e o leitor. As revistas e jornais literários alternativos sobrevivem, alguns, a duras penas, e as edições impressas diminuiram muito – muitos deles têm apenas edição eletrônica ou virtual, o que já é alguma coisa. – o importante é que a publicação exista. Embora o virtual não substitua o papel impresso, obviamente.




Fazendo cruzeiros

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 12 de fevereiro de 2017


Já fiz mais de dez cruzeiros pelo Brasil e pelo mundo e já tinha viajado pela Costa Cruzeiros e não tinha gostado. Como queria levar de novo minha mãe e na data pretendida só havia vaga naquela companhia, encaramos de novo a Costa. Embarcamos no Costa Fascinosa para a Argentina e Uruguai, em quase fim de Janeiro para retornar no início de Fevereiro.

As “inconsistências” já começaram cedo: o cartão chave não foi entregue na entrada do navio, como em todas as outras companhias. Ficamos sabendo, depois de perguntar para ter alguma notícia, que o cartão estava dentro do quarto. Só que quando chegamos ao quarto, ele estava fechado. É que as malas também são deixadas dentro do quarto, e quando o entregador saiu deve ter deixado bater a porta e pronto: tive que sair pelo navio a procurar o deck da recepção - atendimento ao hóspede, para fazer um novo cartão. Chegando lá, havia uma fila enorme de pessoas com o mesmo problema. Além de indignado com o fato de não poder entrar, fiquei receoso pela falta de segurança: e aquelas portas que ficam só encostadas, em quartos com a bagagem e o cartão da gente lá dentro, ao alcance de qualquer um que tenha más intenções? Falei sobre isso na recepção, mas a atendente simplesmente respondeu: aqui na Costa é assim.

Diferente de outras companhias, onde há café, suco, comida e às vezes até sorvete todo o tempo, naquele navio da Costa só tem café disponível no café da manhã e no café da tarde. Suco, só de manhã. Água e gelo apenas em dois ou três lugares e em alguns horários.

A comida no restaurante a la carte também não correspondeu à expectativa: num jantar havia um espetinho frito: carne de boi dura, carne de galinha e de porco lavados, com uma cobertura à milanesa, tudo molenga e gorduroso. Outro dia serviram um peixe com legumes, tudo boiando em gordura. Serviram também, num dos dias, um prato de bacalhau, que consistia em uma pilha de fatias de batata com uma pasta rala de peixe entre elas. Gorduroso. Houve também uma casquinha de siri, no menu, que pedi imediatamente logo que vi, animado, mas siri não tinha nenhum: parecia macarrão. E assim por diante. Então resolvemos comer só no restaurante self service, onde até encontramos bons pratos, ao longo dos dias: salada de polvo, camarões grandes, postas de bacalhau, etc. O navio é de origem italiana, então as massas eram muito boas.

Mas a cereja do bolo foi o que fez um garçom, em um dos bares: debitou meu pedido em outra conta e de outro hóspede no meu cartão e trocou os cartões de pagamento e o outro hóspede que recebeu o meu cartão comprou com ele. Várias compras. A primeira eu consegui estornar no dia seguinte, pois o atendente da madrugada anotou, assim que eu descobri a troca e fui devolver o cartão que não era meu. As outras, no penúltimo dia ainda não tinham sido estornadas, porque apesar de terem tirado cópia de respectivo recibo e comprovado que a assinatura não era minha, o estorno não foi feito porque tinha que ser feito pelo garçom que me atendeu. Esperei que falassem com o garçom e quando voltei, lá pela sétima vez à recepção, a recepcionista me disse que o garçom lhe disse que não havia nenhum problema, que ele tinha falado comigo e acertado tudo. Se ele tivesse voltado e falado comigo, teríamos acertado, destrocado os cartões e nada daquela incomodação – para mim – estaria acontecendo. Além do erro de debitar a minha conta na conta do outro hóspede e do outro hóspede na minha conta e entregar os cartões e contas trocados, ele mentiu. Sem contar que a recepcionista mostrou-me uma comanda no meu nome com uma assinatura que não batia com a minha, o que comprovava que a compra não fora feito por mim e então eu, aliviado, disse: então está provado, pode verificar as outras comandas que vão estar com a mesma rubrica, que não é minha. Ao que a recepcionista olhou para a comanda e para mim e disse: pois é, mas qualquer um pode fazer uma assinatura diferente da verdadeira. Quer dizer: eu devolvi o cartão que não era meu assim que descobri a troca, não comprei absolutamente nada em uma conta que não era minha, o outro hóspede fez várias compras com o meu cartão e eu é que fui chamado de desonesto e ladrão. Porque a recepcionista insinuou, muito diretamente, que eu poderia ter falsificado a minha assinatura para não pagar a conta. Mas eu não fiz nenhum barraco, só questionei que nunca mudei a minha assinatura, ela sempre foi a mesma, e eu não falsificaria por tão pouco nem por muito mais, pois sabia que se encrencasse, nunca estornariam o que não fui eu que comprei e era capaz de aparecerem outras compras. No último dia do cruzeiro fizeram o estorno.

Coisinhas menores: o garçom do restaurante a la carte insistia em trazer em dobro os pedidos da gente: pedia uma garrafa de alguma coisa, vinha duas. E não era problema de idioma, pois eu falo também inglês e usava sinais, para não haver dúvidas. Acabamos desistindo. No quarto, a gente precisava pedir a reposição de sabonete, de toalhas, por exemplo, que deveriam ser repostos automaticamente.

E para encerrar com chave de ouro, o fechamento da conta, na Costa, não pode ser feito na última noite, como em outras companhias, somos obrigados a enfrentar uma fila quilométrica na manhã que devemos deixar o navio para o encerramento: pegar dinheiro de volta ou pagar diferença.

Num país com uma costa enorme como a do Brasil, com apenas dois cruzeiros, um para a Argentina e outro para Salvador e um mini para o litoral de São Paulo e Rio, com apenas duas ou três companhias fazendo cruzeiros, ficamos sujeitos a esse tipo de coisa. E os problemas não foram só conosco: nas filas, que eram muitas, ouvi muitas outras histórias parecidas: uma delas, uma senhora ganhou num concurso um jantar num restaurante pago. Foi com o marido usufruir do jantar e lá dentro do restaurante, na mão dos garçons, o cartão de pagamento sumiu e ninguém mais conseguiu encontra-lo. Tiveram que fazer outro.

Então, quem não viajou ainda por essa companhia, que não é das mais baratas, frize-se, melhor pensar duas ou três vezes. São muitos pontos negativos e muito poucos positivos. Infelizmente. Sem contar que um atendente e uma atendente na recepção atendiam muito mal os hóspedes. E a avaliação do cruzeiro, dos serviços do cruzeiro, por parte dos hóspedes, que até o ano passado era feito no final da viagem, no navio, e agora mudaram para ser feito on line depois de terminada a viagem, não aconteceu. Pediram, no navio, o nosso e-mail para recebermos em casa, após 48 horas do desembarque, o formulário de avaliação, mas já faz mais de uma semana que desembarcamos e nada chegou. E acho que nem vai chegar. Mas marketing veio.




HERÓIS DA LEITURA

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 05 de fevereiro de 2017


Incentivadores da leitura chamam a minha atenção. Muito. Tenho uma enorme admiração por quem se dedica a proporcionar leitura a quem não tinha acesso a ela, das mais diversas maneiras. Pois vi, há algum tempo, no programa Via Brasil, uma reportagem mostrando o “Homem Livro”, de Aracaju. Por que ele é chamado “Homem Livro”? Porque angaria livros, junta-os e sai à rua para distribuí-los às pessoas, gratuitamente. Ele pede livros em doação e os entrega para quem gosta de ler. Não é sensacional? Já vi muitos incentivadores de leitura, gente que sai no bairro e pede livros aos vizinhos e vai formando uma biblioteca comunitária, gente que ao invés de pedir os livros, pede lixo reciclável, então os vende para comprar livros novos para bibliotecas e escolas. Aqui em Florianópolis há até um menino que pediu um cantinho do “boteco” do pai, foi recolhendo livros na comunidade e improvisou uma biblioteca e agora empresta livros às pessoas do bairro.

Mas não tinha visto um personagem curioso assim como o “Homem Livro”, que pede livros por onde passa, vai ao centro da cidade caracterizado – na sua roupa existem trechos de livros, capas de livros, tudo sobre livros – e os oferece à comunidade. Precisamos de mais homens livros, precisamos que eles se multipliquem para que o incentivo à leitura e o acesso ao livro, objeto tão caro hoje em dia, seja democratizado de maneira tão generosa.

Precisamos de mais gente generosa como o “homem livro”, que se transformou em estandarte em prol da democratização do acesso à leitura, em prol da criação de mais leitores, promovendo a distribuição de cultura e de informação.É bom ver iniciativas como esta. A gente constata que nem tudo está perdido. Que ainda existem novas ideias, criatividade e dedicação na luta conta a ignorância e a miséria. Que há quem se preocupe com a educação e com a instrução das pessoas, mesmo as mais humildes, com a cidadania, enfim. Já que o poder público não quer ter trabalho com isso, ao contrário, dificulta a aquisição do hábito da leitura, deteriorando a educação, o ensino público, com modificações desastrosas, má remuneração e qualificação dos professores e falta de manutenção e de equipamentos para as escolas.

Há uma luz no fim do túnel, com esses abnegados heróis que, por sua conta e risco, se dedicam a colocar diante dos olhos de quem precisa os livros que estão guardados, escondidos. Há esperança para nós, seres humanos. Ainda.




NOSSO GRANDE CRUZ E SOUSA na SENSALA

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 26 de janeiro de 2017


Tenho escrito, repetidas vezes, sobre o abandono do Memorial Cruz e Sousa, que foi prometido para o aniversário do poeta em 2008, mas que só foi inaugurado depois do aniversário de 2010, na capital catarinense. Mas o descaso continuou. O espaço era pequeno para se realizar ali atividades culturais, literárias, eventos com algum público, por menor que fosse. Quando da inauguração, divulgou-se que ali, além de ser o jazigo de Cruz e Sousa, seria um novo espaço para acolher eventos artísticos e culturais. Mas a verdade é que o espaço era e continua sendo pequeno e desguarnecido de qualquer móvel para acolher reunião de pessoas.

Eu estive lá para comprovar o fato, várias vezes. Mais uma vez, o governo de Santa Catarina promete, mas não cumpre, ou cumpre pela metade. Promete espaço onde se poderia realizar lançamentos de livros, sessões de autógrafos, homenagens ao poeta, como saraus, exposições, mostras, mas não dá condições para isso, pior. Promete um lugar honroso para o descanso do nosso grande poeta, mas mais uma vez o dinheiro público foi jogado no lixo, pois o Memorial, durante todos esses anos, está fechado, apodrecendo no tempo.

A Fundação Catarinense de Cultura, que é quem administra o imóvel, prometeu várias vezes reformar o Memorial, assim como a Secretaria de Turismo, Esporte e Cultura, para torná-lo usável. Além de tudo, o referido Memorial está construído sobre a Casa de Força do Palácio Cruz e Sousa. Levou tanto tempo, mais de dois anos, desde a chegada dos restos mortais do poeta até que se inaugurasse o Memorial – pela metade, pois o projeto previa mais benfeitorias – e ninguém percebeu que estava sendo construído em lugar impróprio do jardim do Palácio, que era muito pequeno, que não seria possível realizar nenhum evento em espaço tão exíguo? Trouxeram para cá os restos mortais do maior poeta de Santa Catarina, quiçá do Brasil, e o trancaram de volta na senzala, sem direito a visitas.

Pois estamos em 2017 e o Memorial continua lá, totalmente abandonado, apodrecendo, sem que ninguém levante uma palha. O Secretário de Estado do Turismo, Esporte e Cultura anterior, substituído no final de 2016, que deveria ter tomado providências a respeito, não fez nada, aliás, não fez nada em prol da cultura em Santa Catarina. O que ele fazia – e ainda faz – é aparecer, em jornais e na TV, prometendo coisas que não cumpre. Deve estar se preparando para se candidatar a algum alto cargo político, como todo político faz. Um zero à esquerda, como disse a poetisa Maura Soares. Será que o atual Secretário de Turismo, Esporte e Cutlura vai fazer alguma coisa? Será que as coisas vão mudar? Dúvida cruel.

A única coisa que fizeram, nos últimos tempos, foi tirar os restos mortais de Cruz e Sousa do malfadado “memorial” e colocar, há pouco tempo, no Palácio Cruz e Sousa. Um lugar menos humilhante para os restos mortais do grande Cruz e Sousa, que trazidos do Rio de Janeiro, em solo catarinense sofreu todo tipo de descaso e desrespeito.

Uma sugestão de algumas pessoas ligadas à cultura e não à politicagem, é a seguinte: já que o Memorial não merece nenhuma atenção do poder público para consertar a incompetência de quem o construiu, por que não depositar os restos mortais do Poeta Maior na Igreja de Nossa Senhora do Rosário? Como disse Damião, em sua coluna, Cruz e Sousa foi criado pelo Marechal Guilherme, que vivia justamente no entorno do templo católico central, que ele frequentava quando jovem. Então seria um lugar pelo menos mais respeitoso do que o “Memorial” da incompetência e da irresponsabilidade, do descaso e do desrespeito para o maior representante das nossas Letras, em todos os tempos.




CAMBUCÁS, CAQUIS, JABUTICADAS…

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 21 de janeiro de 2017


Numa crónica anterior, sobre a infância, não falei do enorme e único pé de cambucá que conheci quando menino e que povoou toda a minha vida. Nunca esqueci dele. E nunca vi outra árvore como aquela, no decorrer de todos esses anos.

Me reporto à outra crônica, quando inicio esta, porque menciono naquela o bilboquê, que funcionou como uma máquina do tempo, tanto tempo fazia que não brincava com ele e de repente descobri que ainda sabia jogar, que ainda podia brincar de ser menino.

E o pé de cambucá é um marco na minha infância, pois sempre esperei encontrar uma outra árvore com aquela fruta de sabor único, de textura única, que se parece um pouco com pêssego, mas é só um pouco e na aparência. E nunca encontrei, parece que os cambucazeiros se escondem de mim ou pior - será que eles não existem mais, por aqui?

Outra coisa que me fez lembrar do cambucazeiro foi o livro "Minha Aldeia", da minha amiga Norma Bruno. Descobri, lendo o livro, que a árvore favorita dela é o caquizeiro. Meu vizinho tem um caquizeiro e daqui onde estou escrevendo essa crônica, posso vê-lo: ele está verdinho, verdinho, cheio de folhas e logo estará colorido, iluminado, dourado, carregado de frutos. E agora, quando o vejo, lembro de Norma, essa cronista brilhante das coisas da nossa ilha, que ao mesmo tempo que usa o falar do ilhéu, nativo, tem uma elegância ímpar no escrever.

Eu nunca esqueci aquela árvore majestosa, enorme cambucazeiro com uns dez metros de altura. Ela ficava na casa de um vizinho e nós íamos lá, quando era época de colher os frutos, pedir para subir e comer alguns. E os vizinhos deixavam e a gente subia e subia naquela árvore gigantesca e apanhava os frutos amarelos e duros por fora, mas suculentos por dentro, com uma semente dura e lisa, parecida com a semente de abacate, mas menor, talvez do tamanho de uma semente de pêssego. O tamanho da fruta também regulava com o tamanho de um pêssego grande, só que era redonda. A polpa não tinha separação da casca, então a gente abria a fruta com os dentes, tirava a semente e comia a parte macia até chegar na parte mais resistente que era a casca.

O pé de Cambucá deve ser parente da jabuticabeira, pois as flores e os frutos dão direto no tronco e nos galhos, e o sabor é até um pouquinho parecido, mas é característico porque é agridoce, ácido, incomparável.

Queria voltar a subir num pé de cambucá, e me lembrei dele agora porque é fevereiro e os frutos estão maduros para se colher. Alguns amigos meus, que sabem dessa minha nostalgia, já me comunicaram que têm em suas casas um pé de cambucá: Else, de Joinville, Flávio Cardozo, daqui de Floripa, que até me deu alguns frutos dos quais plantei a semente para ter o meu próprio pé de cambucá.

Minha terra, tinha dessas coisas: um pé de cambucá grandioso, dois pés de nozes maiores ainda, tão grandes que se podia ver de qualquer ponto da cidade. E tem as dezenas de cachoeiras belíssimas. Essa terra é Corupá, o vale das águas e do verde, no pé da Serra do Mar.




VIOLÊNCIA X EDUCAÇÃO

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 15 de janeiro de 2017


Há algum tempo, uma apresentadora de telejornal, ao chamar mais uma das tantas matérias sobre o abandono das escolas, por parte do Estado, disse uma coisa muito importante, para a qual venho chamando a atenção faz um bom tempo: se não tivermos escolas em condições de receber os estudantes, se não tivermos professores bem pagos e um conteúdo curricular minimamente apropriado, não podemos esperar que tenhamos cidadãos educados, esclarecidos, produtivos e honestos.

Com a violência, o banditismo e o tráfico de drogas se intensificando cada vez mais, a apresentadora responsabilizou o abandono da educação pela formação de terroristas e bandidos. E esse abandono é visível para quem quiser ver, conforme a televisão e os jornais vem mostrando: escolas estaduais interditadas por absoluta falta de condições de receber alunos e professores, caindo aos pedaços, literalmente.

Todo ano é a mesma coisa: com quase três meses de férias escolares, o Estado deveria providenciar, nesse espaço de tempo, para que fossem feitas obras de reforma em várias escolas públicas. Mas não é o que acontece. As aulas iniciarão e as escolas continuarão, muitas delas, em mau estado. O que será das crianças que precisam estudar? Vão entulhar dezenas de estudantes em pequenas e precárias salas, piorando ainda mais a qualidade do ensino que já vem sendo sucateado pelo poder público, a nível nacional, há tanto tempo?

Como disse a apresentadora, com esse tratamento à educação, como não esperar a escalada de terrorismo que vem se instalando pelo mundo? E o descaso não é só com a educação. É com a saúde, com a segurança, com tudo. Não temos policiais nas ruas. Não há policiais suficientes e os que existem estão prestando serviço em gabinetes de repartições públicas, para políticos, na maior parte das vezes. No que diz respeito à saúde, as pessoas continuam empilhadas nos corredores de hospitais, esperando, esperando e esperando para serem atendidas. Morrendo à espera. Sem médicos, sem enfermeiros, sem equipamentos, sem remédios, etc.

Senhores administradores da coisa pública, em todos os níveis, está na hora de dizerem a que vieram. Está na hora de trabalharem, de fazer o seu trabalho. E quanto a nós, cidadãos e eleitores, está na hora de cobrarmos providências, de tomarmos providências. Já é hora de se fazer alguma coisa. Já está mais do que na hora. A corrupção e o abandono, o descaso com a coisa pública e com o povo, finalmente conseguiram falir o Brasil?.




Cópias de livros

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 08 de janeiro de 2017


Um tema sério para nossa reflexão: a história do ovo e da galinha – quem teria surgido primeiro? – se repete, no problema de leitura do brasileiro: compra-se pouco livro porque ele é caro ou o livro é caro por que se compra pouco? Tenho as minhas conclusões, mas é um bom assunto para se discutir.

Li, há algum tempo, uma reportagem a respeito da reprodução indiscriminada e ilegal de livros através de xerox, nas universidades – e não só nelas. As editoras se ressentiam de tal prática, que lhes causa milhões de reais de prejuízos a cada ano, pois as cópias significam livros não vendidos. Elas queriam fazer valer a lei de direito autoral, coibindo o uso do xerox.

Não seria mais fácil e racional aumentar a tiragem, diminuindo o custo dos livros e, consequentemente, o preço para o consumidor final, o leitor, o estudante?

O livro é realmente muito caro e quem estuda e paga faculdade, além das outras despesas mínimas para sobreviver, raramente tem condições de comprar livros que custam, às vezes, quase um salário mínimo, se bem que aqueles que custam quase ou mais de cem reais já são inviáveis para a maioria.

A verdade é que as bibliotecas das escolas e universidades estão, em muitos casos, defasadas e têm apenas um ou dois exemplares de cada livro no acervo, quando têm. E, já que nem todos os alunos têm condições, elas deveriam ter mais exemplares para que os estudantes pudessem emprestar os livros, sem ter que copiá-los. (Em vez disso, o Estado Catarinense, por exemplo, comprou, há algum tempo, milhares de exemplares de um mesmo livro, antes de verificar que era impróprio para os estudantes, pagando uma fortuna. Aliás, isso de comprar livros indiscriminadamente, sem licitação, aconteceu mais de uma vez por aqui.)

Outro tipo de reprodução ilegal que, parece, ninguém tem interesse de levantar, é a famigerada “apostila”, da qual já falamos, inclusive, em outra oportunidade. Ela é até pior, pois quem a organiza, quase sempre, “chupa” o material de várias fontes – os mesmos livros didáticos que os estudantes teriam que comprar, se não tivessem que comprar as apostilas, que então são vendidas a peso de ouro. São tão caras, que se juntarmos todas as apostilas de um ano letivo, o valor que gastamos para comprá-las daria para adquirirmos todos os livros didáticos que elas substituíram e ainda sobraria dinheiro. Fiz essas contas com as apostilas que minhas filhas usavam no fim do primeiro grau.

No que diz respeito à ficção, já existem em alguns países as cópias piratas de livros: edições com grandes tiragens de best-sellers feitos por editoras clandestinas, imitando com quase perfeição a edição original, tão organizadas que contam até com esquema de distribuição. Esperemos que isto não seja importado pelo Brasil. Que as editoras brasileiras se previnam, revendo os preços dos seus livros, porque as edições piratas são vendidas por preços bem menores que as originais.




AS CORES DA VIDA E DA RENOVAÇÃO

Crédito/fonte: Luiz Carlos Amorim - Site Oficial: http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br - Data: 03 de janeiro de 2017


É um privilégio poder ver o mar para praticamente qualquer lado que se olhe, aqui em Florianópolis, mas meus olhos míopes se revitalizam, se iluminam com a visão de matas mesclando o verde com o vermelho, com o arvoredo todo pintado de cores que vão desde o branco até o vinho, no litoral do norte de Santa Catarina e por outros Estados como Paraná e São Paulo.

Tenho uma relação de amor e dor com o jacatirão. Quando perdi minha primeira filha, há bastante tempo, fazia poucos anos que eu tinha descoberto essa árvore grande e generosa, que se cobre de flores no final da primavera e fica esbanjando beleza até o final do verão, e me tornado admirador e propagador da sua beleza. Então, quando estávamos indo sepultar minha menina, um raio de luz e cor conseguiu atravessar a névoa de dor que cobria meus olhos e eu vi as primeiras flores de jacatirão daquela temporada, numa árvore ao lado do cemitério.

Aí nasceu um pequeno/grande poema: pequeno no tamanho, mas grande no significado: “A primeira flor / de jacatirão / da primavera, / em outubro, / tem um nome: / saudade...”

A relação que temos, eu e o jacatirão, na verdade não é só de amor e dor, mas também de cumplicidade. Porque acho que ele veio me consolar numa hora em que eu precisava muito de luz para mostrar o caminho, mostrar o chão para seguir em frente, mostrar que havia esperança. Que a vida segue e que o tempo cura quase tudo, que a saudade vai se tornando companheira e a dor vai diminuindo, embora volte, às vezes, um pouquinho mais forte. Que a perda ensina a gente a valorizar mais o que se tem, ensina a amar mais e melhor a vida e nossos entes queridos.

Então gosto de falar do jacatirão, de todos os tipos de jacatirão: daquele nativo, que floresce no meio da mata, no verão, no nordeste da nossa Santa e bela Catarina, autêntica árvore de Natal, se enfeitando para o 25 de dezembro e a virada do ano – em meados do verão ele floresce no Paraná, São Paulo e pelo Brasil afora; do jacatirão também chamado de quaresmeira, que floresce mais ao sul de Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e também por quase todo o país, na época da Páscoa, com suas flores menores mas mais coloridas. E o do jacatirão de jardim, que chamam de manacá-da-serra e floresce no inverno. Sem contar o jacatirão roxo e outras variedades menos votadas, que eu chamo de parentes do jacatirão.

Gosto de falar dele, de lembrar sempre dele, também para esclarecer o que diz o verbete correspondente a ele no dicionário Aurélio, que o descreve como uma árvore com “flores insignificantes”. Penso que a alusão é uma opinião que evidencia desconhecimento.

Você, leitor de qualquer parte do Brasil, que não sabe o que é o jacatirão, preste atenção se um dia viajar aqui para o sul ou para o sudeste: do final de outubro até fevereiro, em vários pontos da BR 101 e outras rodovias, você poderá ver as manchas vermelhas nas matas que ladeiam as estradas. É ele, o jacatirão nativo enfeitando nossos caminhos, lembrando-nos que o mundo é bonito e que podemos, sim, ser felizes, se quisermos. Ele estará sempre por aí, arauto da Mãe Natureza, tributo à renovação.




Atenção: O conteúdo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna, este sítio não tem responsabilidade legal pela opinião, o que é exclusiva do autor.

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