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Crônicas e Opinião:

Perfil de Petrônio Souza Gonçalves

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Petrônio Souza Gonçalves, escritor e jornalista, mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Tem três livros publicados, sendo um de contos e dois de poemas.
Em 2005 ganhou o Prêmio Nacional de Literatura "Vivaldi Moreira", da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado.
O escritor e jornalista Petrônio Souza Gonçalves lança seu primeiro livro: “Memórias da Casa Velha”, pela Editora Europa, Rio de Janeiro.
Natural de Belo Oriente, leste mineiro, Petrônio passeia, em pequenos contos, pelos cenários da sua infância, povoados pelas coisas do interior.
Memórias da Casa Velha começou a ser escrito durante as férias de janeiro de 2003, na sala de visitas da casa da sua avó, a casa velha, na sua pequena Belo Oriente.
Ali, Petrônio viu nas páginas da sua agenda o livro pronto e apenas contornou à caneta as histórias que já estavam escritas.
O livro é saudosista, povoado por imagens do passado, coisas que, segundo o escritor, ainda estão presentes em sua vida e no seu coração.




Para o ano que vem

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 18 de janeiro de 2017


O ano começou velho: mortes, assassinatos, massacres. As pessoas começaram o ano como sempre foram e como sempre serão, prometendo, um dia, mudar. 2017 já é igual a 2016, como são iguais todos os anos, no calendário e dentro de cada um.

As promessas de parar de fumar, de beber menos, de maior tolerância às coisas deste mundo não resistiram à noite de réveillon e tudo se foi no ápice do estouro da garrafa de champanhe, com toda ânsia transbordando bem na palma da nossa mão. Fazemos listas e listas do que não faremos no ano novo, porque somos afeitos ao que somos e quase sempre nos tornamos tudo aquilo que nunca quisemos ser. Somos mesmo seres de vazio e adoramos falso preenchimento. Assim sempre fomos, desde depois de ontem. E assim seremos, na eterna hereditariedade das gerações.

Prostrados, como nosso país de joelhos, assistimos, desde o dia primeiro, o despetalar do calendário, o dia a dia caindo e sumindo pelo ralo. O que era ruim, ficou pior, como uma involução diária e precária em marcha batida dessa pobre sociedade brasileira. Em tempo de Temers & Trumps protagonizando os noticiários e ocupando as páginas da história, registramos a falta que faz os Mandelas com seus pensamentos em mandalas, o José entre outros tantos Magos, o Ariano e sua Suna compadecida. Escolhemos nossos líderes e entregamos a eles o comando de nossa vida em sociedade. É inevitável que o mundo tome a forma do pensamento deles, da personalidade deles, de suas ideias. É um tempo de tristeza, das contas diárias vencendo sobre à mesa, da incerteza batendo à porta vizinha e à nossa. É um tempo pesado demais e parece tolo simplesmente acreditar.

Está faltando ao mundo presente a generosidade universal, o desejo natural de mudança, a elevação do pensamento humano, da força motivadora do sonhar e ter a alma cheia de fé e esperança. Já não temos mais motivação para protestar, tudo foi vencido por homens decaídos. Está faltando ao tempo presente luz e os flashes são apenas para registrar o último assassinato de nossas esperanças.

Digito este texto com os dedos em chumbo pesando sobre o teclado porque tenho nada para acrescentar, nada que valha a pena dizer. Toda dor é solitária e nossas alegrias são feitas de pequenas migalhas. Escrevo este texto como uma oração silenciosa de quem pede e clama por mudança. Não a mudança da rua, essa que acaba na primeira esquina. Mas na mudança que acontece, nasce e cresce, dentro de cada um, no mais fundo da alma, e que é capaz de mudar o mundo à sua volta. Essa é a revolução que me interessa, o se elevar em outro patamar.

Assim nossa nave não vai, fica, mais empobrecida, corrompida, desnutrida e sem esperança. Nem bateremos mais nas panelas - cada vez mais vazias - bateremos nos tambores, pois, daqui a pouco, já é carnaval.




A traição como direito de Estado

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 21 de dezembro de 2016


Todo povo tem seu orgulho. O Brasil também tem o seu: ser o país das delações premiadas. Aguardadas com certo fastio, as divulgações das verdades ou versões contadas e depuradas em grampos e gravações - muitas delas ilegais - ganham divulgação imediata e compartilhada, em todos os meios, por todos. Nessa esteira de orgulho e satisfação nacionais, os delatores posam na TV como pops stars da traição, canonizados pelas nossas instituições que deveriam ser mais nobres, obtendo delas o perdão libertador.

O êxtase em flagrar o mal feito quase sempre é maior que a revolta pelo dano causado à nação, ao futuro comprometido. Isso se revela nas benesses concedidas ao delator, com salvas de herói caído de um povo. Primeiro foi o Joaquim - português originário - Silvério dos Reis, até hoje um nome bem brasileiro, sepultando os sonhos de um novo país, nascido do ouro e da honra que não se tinha, e apenas um foi levado à forca. Visando o benefício próprio, Joaquim entregou o seu amigo nos braços da morte, e nem foi preciso um último beijo na noite escura da traição. Se não fosse a coragem solitária de Tiradentes, a Inconfidência Mineira seria a mais longa e duradoura página da vergonha nacional.

Quase cem anos antes, Borba Gato, desbravador do mato, herói nacional, também fez a dele, revelando aos portugueses as minas de ouro do Sabarabussu, se livrando do desterro e da pena de crime de lesa majestade. Sua delação própria, confissão das conquistas da heroica bandeira primeira, possibilitou o povoamento das Minas Gerais, que culminou com uma guerra pátria, a dos Emboabas, e deu ao Estado que nascia e ao Brasil o sentido de nação. Indo ao encontro da alma delatora do povo que em Minas ainda não vivia, se deu o triste episódio que entrou para a história como o Capão da Traição, quando os novos mineiros, os vencedores, abateram os paulistas rendidos e vencidos.

Três séculos depois, as delações ideológicas levaram à prisão e à execração pública de Gregório Bezerra e Francisco Julião, por tornarem realidade um pioneiro projeto social e ideológico no nordeste deserto de ideias, de programas, de esperança, de história. Tudo isso, por terem feito a diferença, quando todos queriam ali, na extrema pobreza, sempre o igual. Ideologicamente acovardada, a nação de cócoras coroa o que sempre foi objeto de desprezo e indiferença aos povos: o delator.

O estado policialesco, desagregador, do medo; os privilégios àquele que vigia e denuncia, que grava a reunião em que ele é um dos atores, faz a insegurança nas convivências, faz um país menor, alicerçado no que pratica a traição duas vezes. Esse é também a base da nossa justiça, que avança na esteira da delação, encurtando assim o caminho do que deveria ser investigado e fartamente provado e comprovado, seguindo os trâmites legais do Estado de Direito, aquele que veio para substituir o Estado justiceiro. E a justiça nacional, em todas as suas instâncias, com aplausos de toda nação, pratica sua barbárie moral, institucional, ideológica; tudo isso, sem precisar de um truculento e obsoleto AI-5. Na premiada e premeditada delação, temos a alma da nação revelada. Vale lembrar que a etimologia da palavra companheiro é “aquele que come comigo”.




Para onde caminha a Humanidade?

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 05 de dezembro de 2016


Nós, ocidentais, temos uma visão equivocada do tempo, como se ele fosse uma linha reta, saindo das trevas e indo sempre em frente, na busca eterna pela luz. Isso nos traz um certo consolo, uma justificativa íntima para todas as nossas conivências e conveniências. Cíclico, o tempo nos revela em espiral, nos levando pelas curvas, subidas e descida da história, do tempo, da vida. Assim ficam mais compreensíveis as coisas deste mundo e nos dá a sensação e a convicção de que devemos estar sempre atentos, atentos e serenos na defesa diária da liberdade de expressão, do livre pensamento, no direito de ir e vir, de questionar, de buscar e apontar um novo caminho.

Muitos foram os momentos da mais profunda treva e da mais completa luz na história da Humanidade. Duradouros ou efêmeros, passamos por essas estradas ou pequenos atalhos na longa caminhada da existência humana sobre a face da Terra. Muitos foram os momentos que são de eterno exemplo e referência para todos nós, daquilo que se deve e que não deve ser feito, permitido, repetido. Nessa esteira, analisamos também os processos que levaram a períodos extremados, com reflexos para todo o sempre, daquilo que nunca mais deve se repetir.

As intepretações equivocadas desses períodos, sem uma clara visão do todo e das entrelinhas que os antecederam e os envolveram, são sempre utilitárias, prestando um grande desserviço às gerações e a plena compreensão de determinado momento vivido pelos povos do planeta, de todas as nações. O que vale destacar é que os períodos mais negros contaram não só com a conivência de grande parte da população envolvida, mas com a sua direta participação e aquiescência. Foi assim com a dor ensanguentada do Cristo; a escravidão secular, continental e transatlântica de todo um povo; as perseguições, invasões e genocídios da II Guerra Mundial; o golpe militar no Brasil e na América Latina; a invasão do Iraque, berço da Humanidade e cenário universal das histórias infantis; o ódio diário nas ruas ao que é diferente, ao que é novo, ao que não tem nome.

Os messianismos, o radicalismo desmedido, as intransigências em momentos das mais profundas crises sempre guiaram e justificaram as atitudes e decisões dos povos em situações difíceis, revelando uma mentalidade e consciência advindas das trevas, o lado de pouca luz que habita a alma humana. Ainda não rompemos com o umbilicalismo belicoso das cavernas, com os mais enraizados extintos primatas, os sentimentos segregacionistas dos bandos, das tribos, dos eleitos.

Saio para as ruas em busca de um novo tempo, como se ele existisse fora, habitando o mundo à minha volta. Busco aqui, ali e acolá. Ele não está. Vejo nas bancas de revistas as capas dos jornais, me assusto; paro e penso, diante da realidade que não desejo: apesar de toda arrogância, de toda prepotência, de toda ignorância e da falta de esperança, lá, nos confins do mundo, alguém irá ver o sol se pôr, e será belo!




Para os rios da minha aldeia

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 14 de novembro de 2016


Minas são seus rios. Se não fossem os rios, Minas não existiria. Sem o Ribeirão do Carmo, não haveria Mariana, a vila não seria rica e o Itacolomi seria apenas um fantasma desolado erguido sobre o silêncio, o tempo e a eternidade. Diamantina não seria nem Tejuco. O Serro do Frio apenas um entreposto rumo à Bahia e o sertão dos índios bravios. Não haveria Chica da Silva, nem Tiradentes. Sem seus rios, Minas seria o Sertão dos Cataguases, sem ouro, sem história, sem bandeirantes, sem nada. Os rios são a inconfidência mineira no mapa do tempo, tendo todo o ouro como testemunha.

Antes dos rios, a lagoa das esmeraldas fez o primeiro levante paulista sertão adentro, tendo como guia o paulista sexagenário e sua bandeira primeira, dando com os costados na região central do Estado. A lagoa ele encontrou, as esmeradas não. Borba Gato achou a montanha do Sabarabussu e o ouro existente entre ela e as águas do rio das Velhas. Minas não nasceu nas montanhas, mas nos rios, no fundo dos rios.

Sempre generosos, navegantes portugueses abasteciam seus navios com as águas doce do rio a mais de 20 quilômetros de distância do litoral do Espírito Santo, com a tripulação colhendo água potável no meio do mar, tamanha a pujança e força do rio que não existe mais. Serpenteando, as cidades mineiras seguiram o leito dos rios, servido dele enquanto o matavam, aos poucos. As casas eram e são construídas de costas para eles, negando a beleza do rio, destinando a eles a indiferença, o esquecimento e o lixo diário. As crianças sabem o valor do rio, mergulham na alma deles. Adultos, passam a ignorar o bem que um dia foi deles.

Todos os dias depositamos nos rios do Brasil a nossa parcela diária de culpa, exatamente do tamanho de nossas possibilidades. Confinados, muitas vezes tem seu curso alterado, refletindo diretamente no ciclo de vida de seus peixes, aqueles que fazem a vida do rio. O que as mineradoras fazem com os rios é o mesmo que nós, cidadãos brasileiros, fazemos diariamente.

Nos arredores dos grandes centros, os pomposos condomínios fechados são construídos, em sua grande maioria - com a plena autorização dos órgãos competentes -, em áreas de nascentes, aquelas que deveriam abastecer com água saudável e potável as grandes cidades. Tudo feito de forma quase sempre legal.

Como se não bastasse o crime contra o rio Doce, tramita na Assembleia Legislativa de Minas Gerais o Projeto de Lei nº 3614/12, que legaliza a exploração dos poucos rios que são protegidos por Lei, considerados como preservação permanente, por serem fontes de vida, beleza e de lazer para a população. Os rios de preservação permanente, protegidos pela Lei nº 15.082/2004, são aqueles com excepcional beleza com claro valor ecológico, histórico ou turístico, fonte da vida silvestre em áreas preservadas ou com poucas alterações. E é exatamente com isso, a excepcional beleza, o valor ecológico, a vida em sua forma mais pura, que esse Projeto de Lei quer acabar, se utilizando da frágil justificativa de "interesses públicos" e a "necessidade de desenvolvimento do Estado".

Os rios são poucos, mas as “samarcos” são muitas: infelizmente!




A grande saga do Rosa

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 08 de setembro de 2016


Não é o caminho, é a caminhada; ensina João Guimarães Rosa na voz do Tatarãna. O caminho está lá, no sertão infindo. A caminhada não, essa se dá dentro da gente. Muitos já passaram e vão passar por ele, poucos vivenciaram o que Guimarães captou naquele trajeto de 240 km, desde a partida com a lendária comitiva da improvável fazenda Sirga, região da represa de Três Marias, centro-norte mineiro, à chegada ao imponderável, na fazenda São Francisco, região de Araçaí, porto do que não existiu. Era maio do distante ano de 1952.

Durante dez dias, Guimarães Rosa montado no lombo da mula Balalaika percorreu ao lado de dezoito vaqueiros um percurso inusitado, cerrado mineiro adentro, onde adormecem nas veredas as coisas que existem e não tem nome, o sertão dentro e profundo, o infinito materializado. Naquela inesperada viagem, alguns reis a cavalo ao seu lado, como o mago Manuelzão – o capataz; Bindóia – o tocador de berrante e Zito – o cozinheiro.

João Guimarães Rosa foi mais um, guiando a boiada de cento e oitenta bois para uma viagem cósmica, translúcida, aquela que se vê e não se pega, aquela que está além, mas faz parte da paisagem. Hoje o caminho é roteiro turístico, institucionalizado, ou seja, existe para não ser. O que Rosa buscou foi um não caminho, para dar nome ao que existia, se sabia, mas não se traduzia. Só os gênios têm esse poder, porque chegam antes da divindade e decifram o grande milagre da vida, que só ocorre quando ela não se faz dividida.

Foi lá, no meio das árvores que se contorcem na dor de existir e não quebram, nas flores que brotam da casca dura e oca das cigarras, que ele sentenciou: “nada está terminado”. Imagino que ele assistia às primaveras repetidas nas flores depois de abril, quando tudo é silêncio e distância. A travessia é isso. O fim no começo. O que se revela depois do caminho trilhado, quando nada do que se buscou foi encontrado. A caminhada é apenas isso, um reencontrar renovado com o inesperado, esse deus de pequenos milagres que só existe no que não foi pensado, no que não está definido.

O que hoje lá vive é apenas o vento que passou e não pousou, o ‘fantasma desolado’, o que não vive aqui e nem lá, mas enche nossa vida de fé e esperança. Lá, exaustos de tanto sol, Riobaldo e Diadorim encontraram abrigo no sem fim, nas dobras da história, e se amam no cio das noites sem lua. O romance deles - que hoje nos pertence - está lá, inteiro, de janeiro a janeiro, declarado e estendido sobre a paisagem, palmilhado nos olhos de Diadorim que de tanto ver o céu, tornou-se jardim. Por isso, não o podemos ver, muito menos sentir, apenas ouvir nas madrugadas de ventania suas vozes que se fundem com a aurora, para renascer no amanhecer de outra história, essa que não está escrita e grita dentro de todos nós, que amamos o universo do Rosa, o encantado.

Talvez sua maior obra seja essa; ser sem estar. Estar em tudo e não se encontrar em nenhum lugar. Com a graça de Deus. Travessia.




“José Aparecido de Oliveira - O Melhor Mineiro do Mundo”

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 13 de junho de 2016


Começa a ser lançado pelo Brasil o livro sobre a vida e obra de um dos maiores brasileiros de todos os tempos, o político mineiro José Aparecido de Oliveira. Organizado pelo jornalista mineiro Petrônio Souza Gonçalves, o livro perpassa por toda trajetória de José Aparecido de Oliveira, desde a infância no interior de Minas até a criação da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, estruturada quando Aparecido foi embaixador do Brasil em Portugal. A edição teve o apoio cultural da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM.

O livro aborda ainda as muitas facetas de Aparecido, que por mais de meio século exerceu o poder com influência determinante no Brasil. A que se destacar que poucos homens públicos exerceram por tanto tempo tanto fascínio no meio político, social e cultural do país, com tanta originalidade e personalidade.

José Aparecido dizia que um povo sem cultural é como um corpo sem alma. Ele foi o primeiro secretário de Cultura de Minas Gerais, no governo de Tancredo Neves, e o primeiro ministro da Cultura do país, no governo de José Sarney. Quando governador de Brasília, retomou o projeto original de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e foi o responsável pelo tombamento da capital federal pela UNESCO, sendo Brasília a primeira cidade criada e tombada no mesmo século em todo o mundo. José Aparecido foi conhecido em vida como o ‘Zé de todos os amigos’.

O livro além de depoimentos traz artigos assinados por pessoas ligadas a Aparecido durante toda a vida, como Oscar Niemeyer, Ziraldo, Mauro Santayana, Sebastião Nery, José Maria Rabelo, Aristóteles Drummond, entre muitos outros amigos de José Aparecido de Oliveira. Fatos da vida particular de José Aparecido, até então desconhecidos, também são abordados e revelados no livro.

Vale lembrar que foi de Aparecido o argumento final para Itamar Franco aceitar ser vice de Collor, quando Itamar desejava mesmo ser vice de Brizola. Esta e outras histórias estão contadas com detalhe no livro. Outro fato narrado na obra foi o encontro de Zé Aparecido com colunista Antonio Maria, que todos os dias falava mal de Aparecido em sua coluna. Quando os dois se encontraram pela primeira vez na noite do Rio de Janeiro, Zé Aparecido se recusou a cumprimentar Antônio Maria, dizendo que o colunista falava mal dele sem o conhecer. Antonio não perdeu a piada e disse: “É por isso mesmo que falo mal, pois se eu o conhecesse, seríamos amigos e eu só falaria bem de você”. Os dois se tornaram amigos da vida inteira, sendo a amizade com Maria compartilhada por toda família de Aparecido. O livro tem 230 páginas, com fotos dos principais momentos da vida do lendário político mineiro.




Um viaduto no meio do caminho

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 07 de junho de 2016


Toda cidade é um museu a céu aberto, um rosário de lembranças em contas de cada esquina. Algumas, pelo descaso de seus governantes e a omissão de seus cidadãos, um rosário de tristezas e decepções. Outras, uma exaltação diária à história e à memória daqueles que a construíram e a mantém de pé. Belo Horizonte, que nasceu como uma cidade projetada, não tem uma raiz natural de seus primeiros habitantes, seus primeiros anos. Mas tem monumentos erguidos com a lembrança de quem começou a conviver com a cidade e construiu uma relação de amor com ela. Suas ruas que cruzam e descruzam em todos os sentidos, são testemunhas desses encontros, além do tempo.

Símbolo da capital mineira e referência de sua arquitetura, o Viaduto de Santa Tereza talvez seja o monumento mais representativo, entre todos. Três gerações passaram pelos seus arcos, as melhores que um país pode ter. A primeira foi a de Carlos Drummond de Andrade e o lendário grupo Estrela, formado também por Emílio Moura, Pedro Nava, Gustavo Capanema e Milton Campos, que do alto do viaduto assistia o sol nascer ao longe, com seus raios escorrendo a poesia urbana pelas ruas da capital de todos os mineiros. Drummond morava na Floresta, na Rua Silva Jardim, e o viaduto era uma pedra no meio do seu caminho, uma pedra preciosa, onde ele se sentava e divagava sobre as coisas deste e do outro mundo. Imagino que muito de seus versos nasceram ali, distraidamente.

Depois, veio a turma de Fernando Sabino com seus profetas do apocalipse, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, que do Viaduto mirava o infinito e via o futuro com suas previsões improváveis. Fernando fazia questão de destacar em suas entrevistas os feitos de sua geração ao escalar o umbral do Viaduto de Santa Tereza.

Poucos anos depois, veio a turma de Lô Borges e do Clube da Esquina, que depois de algumas incursões na noite belorizontina do centro, voltava para Santa Tereza, inspirados pelos arcos suspenso no universo aberto, para fazer história cantando em suas esquinas a canção que agora é de todos nós.

Hoje, olho para o Viaduto de Santa Tereza e vejo ‘seu fantasma desolado’ no horizonte alquebrado da capital mineira. Onde havia poesia, há apenas sustos e assaltos. Onde havia música, hoje há buzinas e desilusão. Onde havia uma visão de mundo e divagações, hoje há apenas tapumes e a certeza do que não existe mais. Lá em baixo, como silenciosa testemunha de nosso tempo, onde passava um rio, escorre apenas o lixo humano produzido no silêncio de nosso lar.

Como uma crua e dura paródia moderna, o Viaduto histórico e cultural tem hoje um sistema de iluminação improvisado, dentro de seu esqueleto exposto com todas as suas chagas, uma vergonha urbana e humana para todos nós. Não tem mais poesia, não tem mais música, e nenhum ‘auto passará sobre seu cadáver’, enquanto nós, com nossa omissão diária, velamos, todos os dias, seu corpo insepulto na nossa pobre tarde vazia.




A cultura e a alma de um povo

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 16 de maio de 2016


José Aparecido de Oliveira foi o primeiro secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais e o primeiro ministro da Cultura do Brasil. Dizia que um povo sem cultura é como um corpo sem alma. Foi pioneiro na conscientização da defesa do nosso patrimônio artístico e arquitetônico, e na defesa permanente da cultura e da arte brasileira. Vislumbrou o Ministério da Cultura quando lançou, de forma inédita no Brasil, a campanha em defesa do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade do Serro, em 1974, com ampla divulgação pelo país, ganhando apoio e incentivo do grande historiador nacional Hélio Silva, do grande arquiteto nacional, Oscar Niemeyer, e do grande cartunista nacional, Ziraldo. Muitos se juntaram ao seu pioneiro movimento, que culminou com um grande ato em praça pública no Serro, no ano de 1975. Para lá rumaram em precária estrada de terra os maiores nomes da intelectualidade brasileira, para fazer um grande comício em defesa do nosso patrimônio artístico e arquitetônico que definhava, um verdadeiro ato público pela cultura brasileira, isso tudo em plena Ditadura. Sua presença foi tão marcante nesta campanha que até um ministro do governo militar se fez presente, Severo Gomes, sendo José Aparecido de Oliveira um político cassado pelo Golpe de 1964.

As ruas do Serro, as montanhas de Minas e os degraus da igreja do Carmo assistiram a bela solenidade naquele improvável ano de 1975, quando foi gravado em pedra e enterrada em sua escadaria uma urna contendo os jornais da época, revistas, fotos, editoriais e documentos daquele movimento pelo tombamento do patrimônio histórico do Serro. Era o início de tudo...

Pouco tempo depois, sendo ele o segundo deputado federal mais votado por Minas Gerais nas eleições de 1982, negociou com o novo governador de Minas, Tancredo Neves, a criação da Secretaria de Estado de Cultura, pensando sempre em cuidar da alma do povo das Minas, que via seu legado histórico e cultural sendo consumido pelo tempo.

Como secretário de Estado, congregou as várias entidades culturais do país, que culminou no Fórum Nacional de Secretários da Cultura, quando foi lançada a pedra fundamental do Ministério, chegando ao presidente João Batista Figueiredo a sugestão de que o ano de 1985 fosse decretado como o Ano Nacional da Cultura, o que foi aceito pelo último presidente militar do Brasil. O Fórum foi fundado com a ajuda de Darcy Ribeiro, que a exemplo de Minas criara a secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro.

Depois da eleição de Tancredo Neves como presidente da República, José Aparecido de Oliveira levou para o Planalto Central a experiência exitosa da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, fundando assim o Ministério da Cultura, sendo ele o primeiro ministro. Seu projeto inicial implantava centros culturais comunitários por todo o Brasil, colocava na ordem do dia a restauração de prédios históricos e das grandes estações ferroviárias do país, criou a Assessoria de Assuntos de Cultura Negra e a Assessoria de Assuntos da Cultura Indígena, imaginando interligar as várias matrizes da cultura brasileira, sabendo ser ela fundida em uma só.

Trinta anos depois, o Brasil tornou-se um país sem Ministério da Cultura, como um corpo sem alma.




Um dia; sem adeus

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 02 de março de 2016


Hoje voltei ao bar no centro de Belo Horizonte para ver se ela ainda estava lá; me esperando. Estava! Dezesseis anos depois ela ainda estava lá, com seus olhos de menina fumegando as coisas que trazia por dentro. Nas mãos os mesmos ideais e o livro com os 12 signos do zodíaco estampados na capa, em nossa juvenil busca cosmológica tentando saber uma pouco mais sobre nós mesmos. Estava confuso naquela tarde lúdica, para o encontro em local improvável, com ela repetindo o endereço pelo telefone, para minha parca compreensão de menino vindo do interior sem saber os caminhos dos encontros no centro da capital de todos os mineiros. Era no segundo andar.

Subo as escadas do tempo e me deparo com o seu sorriso, como na primeira vez, pairando por sobre as horas, por sobre as eras. Era o mesmo riso. Ela estende os braços, me toma pela mão e descortina a paisagem, apontando com o dedo o horizonte concreto: “Viu como é bonito, é diferente!”. Como poderia ver algo se apenas via a sua beleza à minha frente, se apenas enxergava seu sorriso refletido dentro de mim?! Ela espera por um segundo, sabendo que fui no mais fundo de mim para emergir e poder voltar à realidade, à lucidez do dia que me embriagava, que me aprisionava, para todo o sempre: “Érica”, esse era o nome dela, “como você descobriu isso aqui?”. “Pois é, aqui estamos no centro e podemos conversar sossegados”. E conversamos, conversamos, conversamos, nos embrenhamos em nossos segredos, em nossos mistérios. Na verdade, estamos conversando até hoje, divagando sobre os signos do zodíaco e os equívocos da vida de quem vive sem céu. Nos questionávamos, nos indagávamos, e nossa tarde se foi como um mergulho nas mazelas da pobre alma humana, em nossa surda busca por nossa paternidade, inspirados por um estranho desejo de sermos diferentes, de não sermos daqui, finalizando junto com o dia que não era mais luz. Foi o nosso último encontro.

Muito tempo se passou e eu buscando seus sinais nas noites sem lua, seus passos sem vestígios marcados na palma de minha alma. A última notícia que tive é de que estava morando em Recife, talvez trabalhando em sua área, engenharia química. Quando penso que a esqueci, sonho com ela, como na imagem que primeiro vi, a menina de olhos verdes e cabelos loiros encaracolados, com um gorro na cabeça, se protegendo do frio mundo moderno.

Hoje, tantos anos depois, me reencontro com ela, na verdade, comigo mesmo, na tola tentativa de me resgatar, encontrar com o que ficou de mim naquela mesa de bar, sem bebida. Sei do muito que ficou ali, no mesmo lugar, implorando para viver o que não existe mais. Ela está na minha frente, linda, divina, exatamente como na última vez. Pena; hoje não vamos poder conversar.




Atenção: O conteúdo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna, este sítio não tem responsabilidade legal pela opinião, o que é exclusiva do autor.

Previsão de Tempo CPTEC/INPE

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