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Crônicas e Opinião:

Perfil de Petrônio Souza Gonçalves

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Petrônio Souza Gonçalves, escritor e jornalista, mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Tem três livros publicados, sendo um de contos e dois de poemas.
Em 2005 ganhou o Prêmio Nacional de Literatura "Vivaldi Moreira", da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado.
O escritor e jornalista Petrônio Souza Gonçalves lança seu primeiro livro: “Memórias da Casa Velha”, pela Editora Europa, Rio de Janeiro.
Natural de Belo Oriente, leste mineiro, Petrônio passeia, em pequenos contos, pelos cenários da sua infância, povoados pelas coisas do interior.
Memórias da Casa Velha começou a ser escrito durante as férias de janeiro de 2003, na sala de visitas da casa da sua avó, a casa velha, na sua pequena Belo Oriente.
Ali, Petrônio viu nas páginas da sua agenda o livro pronto e apenas contornou à caneta as histórias que já estavam escritas.
O livro é saudosista, povoado por imagens do passado, coisas que, segundo o escritor, ainda estão presentes em sua vida e no seu coração.




EcoTurismo e religiosidade no caminho da Estrada Real

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 24 de julho de 2017


A tri-centenária Conceição do Mato Dentro busca retomar o título de Capital Mineira do EcoTurismo e não se esquece de reverenciar sua história e suas raízes, que são de uma mineiridade profunda.

Tudo é história e devoção em Conceição do Mato Dentro. Ali os primeiros desbravadores, cansados de ver tanta beleza, pararam para descansar e onde deixaram cair suas armas nasceram povoados, comunidades, distritos. Assim é Conceição do Mato Dentro, com a história das Minas Gerais espalhada em seus quatro cantos, escondida e protegida nas muitas dobras do maciço do Espinhaço.

Situada no meio da Estrada Real, os primeiros relatos dão conta de bandeirantes que vindos do Serro do Frio encontraram ali ouro, pouco, às margens do rio Santo Antônio, e fundaram o belíssimo e histórico distrito de Córregos, por volta de 1702. Pouco tempo depois, outros bandeirantes chegaram ao pé da Serra da Ferrugem, que circunda a cidade, e depararam em luta com índios Botocudos. Ali firmaram residência até que no ano de 1734 o escravo Antônio Angola encontrou no campo uma imagem do Cristo crucificado em madeira. Após receber um milagre, o português originário que habitava a cidade, José Corrêa Porto, cumpriu a promessa e construiu no alto do morro uma igrejinha para abrigar a imagem. A igrejinha foi construída onde hoje se encontra o Santuário do Bom Jesus do Matosinhos. Desde então o lugar se tornou ponto de peregrinação, chegando neste ano ao 230º Jubileu de Bom Jesus do Matosinhos, quando a cidade recebe romeiros vindos de todas as partes e de todas as formas de Minas Gerais e do Brasil.

Hoje Conceição sedia a maior peregrinação religiosa de Minas Gerais. Se não bastasse o histórico Jubileu, a quase 70km dali e em sua zona rural, no distrito de Capitão Felizardo, se encontra um dos lugares mais inusitados de Minas Gerais e talvez do mundo, o Cemitério do Peixe. Um lugarejo que é até mesmo difícil de descrever, pois existe uma capela, duas centenas de casas simples, o cemitério, o rio, o infinito e o nada, nada, nenhum morador. Distante de tudo e de todos, Cemitério do Peixe é quase impossível de se classificar, com sua beleza sui generis, improvável, embalada pelo silêncio dos que não estão mais aqui.

Quase um milagre, o povoado é a pura materialização da fé Humana. O lugarejo só existe uma vez por ano, quando para lá vão devotos para rezar para seus mortos e suas almas. Aquilo é a mais bela e profunda obra do inusitado. Tudo começou no século XVIII, quando a Coroa Portuguesa mandou instalar por ali um ponto de fiscalização, pois aquelas inóspitas paragens eram usadas como rota clandestina, paralela à Estrada Real, para o contrabando de ouro e diamante, aventureiros fugindo das taxas e tributos impostos pela Coroa na extração e comercialização dos minérios. Entre algumas versões, a mais plausível nos diz que por estar distante de tudo - aquilo até hoje é um ermo profundo - os fiscais da coroa teriam comido peixes estragados daquele pequeno rio e morrido. Ali foram enterrados, em cemitério improvisado, naquela região conhecida como Serra do Quartel.

Para aquelas almas perdidas em lugar desabitado, a igreja ia para lá anualmente rezar em missa pelas almas, debaixo de um bambuzal. O tempo foi passando, moradores dos arredores sendo enterrados ali, até que o herdeiro daquelas terras, senhor Antônio Francisco Pinto, resolveu construir uma pequena capela, consagrada a São Miguel Arcanjo e Almas, isso em 1916. O senhor Antonio Francisco também permitiu que os fiéis que iam para as missas e sem ter como voltar, construíssem pequenas casas como abrigo ao redor da capela. E algumas casas começaram a ser construídas, casas simples, abrigos mesmo, até que no ano de 1940 Antônio Francisco resolver documentar a doação daquela área que já contava com boas dezenas de casas. E assim foi redigido o documento de doação das terras às almas, registrado em cartório: “Adquirente: As almas do Cemitério do Peixe (...) Título particular de doação no valor de 200$000 (duzentos mil reis), sem condição”. As primeiras casinhas, simples, de dois cômodos apenas, com janela e porta ainda estão lá, caiadas em branco pela fé humana. Quem conta essa história é o fazendeiro Luiz Rodrigues, guardião do Cemitério, juntamente com a diocese de Diamantina, há exatos 55 anos. Quando menino, recebeu do seu pai, já no leito de morte, a missão de cuidar do Cemitério até seus últimos dias. Ele é a memória viva de quase tudo que se passou ali e identifica uma a uma as casas das famílias que construíram e que para lá vão em romaria todos os anos. Não tem como não ficar tocado por toda aquela história e beleza. No cruzeiro que fica dentro do cemitério lê-se na placa: “Ó tu que vens a este cemitério, medita um pouco nesta campa fria: eu fui na vida o que tu és agora, eu sou agora o que serás um dia”. O Cemitério do Peixe talvez seja o único lugar no mundo que pertence às almas. Para chegar lá é preciso ser acompanhado por guia da cidade, pois dos 67km saindo de Conceição, 25km são em estrada de terra.

De volta à cidade, uma boa dica para terminar o dia é um passeio ao Balneário da Água Quente, que fica em plena área urbana de Conceição, a exatos 700m da prefeitura. O Balneário fica aberto ao público e conta com uma piscina de água natural e pequenos poços no curso de uma extensa corredeira. Um pouco mais abaixo, uma formação rochosa como uma pequena gruta com queda d’água. Sua estrutura é simples, mas funcional para o visitante, com quiosques para fazer churrasco, receptivo e quadra poliesportiva de areia.

Cerveja e tira-gosto no curral

A 18km do centro de Conceição do Mato Dentro, em estrada de terra em boa conservação, encontra-se o distrito de Tabuleiro, badalado por sua cachoeira mundialmente conhecida, pois é a mais alta de Minas Gerais e a terceira mais alta do Brasil. Tabuleiro tem vida própria, secular, com seu povo simples convivendo com a beleza à sua volta em uma aconchegante vila. A bela igrejinha é consagrada ao Sagrado Coração de Jesus e dá um tom bucólico e de uma mineiridade profunda ao arraial. Lá tem uma boa estrutura para receber o turista, com bons restaurantes, bares e pousadas. Uma das pousadas é a Gameleira, com diária média de R$180,00 para casal (www.pousadadagameleira.com.br) outra é o Tabuleiro Eco Hostel, com diárias a partir de 150,00 para casal (www.tabuleiroecohostel.com.br). O restaurante Rupestre tem almoço ao preço médio de R$23,00 por pessoa (31) 99905-5152. Já no bar/restaurante da Ceci, a primeira indicação dos moradores, o almoço sai a R$ 25,00 por pessoa (31) 99748-5511. São muitos os atrativos nos arredores do distrito de Tabuleiro, entre cachoeiras, corredeiras e muitos poços.

Mas melhor de tudo que está ali é o bar conhecido como Bar do Crido, que é na verdade uma pequena mercearia, quando se toma uma cervejinha acompanhada por bons tira-gostos da roça dentro de um curral, distante 1,5km do centrinho da vila. O Bar do Crido é ponto de encontro dos moradores dos arredores e turistas, e fica rodeado pelas casas dos familiares do saudoso senhor Crido. Quando se olha com calma para tudo aquilo a sua volta se tem uma leve sensação de que ali o tempo parou para ficarmos apenas pensando nas boas coisas da vida. Bem ao lado do bar tem um alambique da família, onde se pode beber uma boa cachaça mineira na fonte, sendo o preço do litro a R$6,00. Dali organiza-se também passeios a cavalo, com vários roteiros, indo até a cabeceira da cachoeira Tabuleiro, ao preço médio de R$50,00 por pessoa (31) 99915-7226. Por mais 600 metros, chega-se ao engenho do senhor José Paca, onde se compra uma boa rapadura ao preço de R$10,00 a peça.

Rabo de Cavalo

Se encantar com as belezas naturais da Serra do Espinhaço no município de Conceição é histórico. Auguste Saint-Hilaire, o desbravador francês que andou pelo Brasil colônia no início do século XIX, se esmerou em seu relatório quando ali parou para divagar sobre aqueles maravilhas reunidas. Passando pela área que envolve a cachoeira Rabo de Cavalo relatou o Saint-Hilaire no distante ano de 1817: “Nenhum rio considerável aí nasce, é verdade, mas é aí que têm nascentes vários regatos, alguns dos quais correndo para oeste, como o Cipó, lançam-se direta ou indiretamente no São Francisco, e, outros, na vertente leste, tal o Ocubas, levam suas águas ao Rio Doce”, lembrando que ali é um divisor natural entre as bacias do rio Doce e do São Francisco, quando se vê claramente pequenos cursos d’água descendo para uma ou outra bacia bem na crista da Serra.

A 11km do centro de Tabuleiro, em estrada de terra em bom estado de conservação, está a belíssima cachoeira Rabo de Cavalo, que fica dentro do Parque Estadual da Serra do Intendente. Com suas três quedas no fundo de um pequeno cânion de pedra, a beleza da cachoeira é descomunal. O nome se deve à queda d’água que devido a sua altura balança ao sabor dos ventos, fazendo um espetáculo à parte. O gerente do Parque, Marcos Santos, ressalta que “a cachoeira Rabo de Cavalo está em um paredão que tem cerca de 190 metros de altura. A queda se forma a partir de dois cursos d’água, originando duas quedas paralelas que depois se juntam formando uma só. O seu grande poço tem 50 metros de comprimento por 35 metros de largura. Já foram registrados pelo Corpo de Bombeiros trechos de 12 metros de profundidade”.

Não tem como não ficar tocado pela beleza das quedas que se descortinam ao final da trilha, pois é de deixar até o mais distraído aventureiro de queixo caído. A visão das três quedas, uma sobre a outra, é surpreendente. Devido à altura, essa imagem só pode ser vista à distância, pois quanto mais se aproxima da cachoeira ao fim do cânion, perde-se o ângulo de visão da cachoeira superior. Diante da queda da Rabo de Cavalo e abraçado pelo grandioso cânion, todo aquele cenário nos traz um momento de reverência e agradecimento, foi o que vimos acontecer espontaneamente entre os visitantes daquela vespertina visita. Verdadeiramente, tem-se a nítida sensação de estar diante de um santuário.

A trilha para a cachoeira tem 2,4km e é sem grau de dificuldade, sendo toda sinalizada, com pontes de madeira sobre riachos e vãos, além de escadarias nas áreas mais íngremes. É um proveitoso passeio para toda a família, sem restrição de idade.

A área de estacionamento dos carros também é utilizada para camping, sendo ela administrada pelo ex-guarda-parque Sérgio Rodrigues, que mora em uma singela casinha na entrada do estacionamento. Sergio lembra que no camping cobra-se uma diária de R$ 15,00 por pessoa e de R$ 10,00 para o carro. Como tudo está no começo, estão sendo construídos banheiros e lanchonete na área do camping. Para informações e reservas, o telefone do senhor Sérgio é 31 – 99886-5305.

História e tradição

Conceição tem hoje aproximadamente 20 mil habitantes e conta com uma boa cadeia de hotéis, indo de hotéis fazendas bem estruturados, pousadas aconchegantes e até as mais simples. Uma das pousadas aconchegantes é a Serra Velha, com diária média de R$ 200,00 por casal (www.serravelha.com.br). Outra é a pousada Solar do Rosário, com diária média de R$100,00 para o casal (31) 3868-1463. A cidade conta ainda com bons bares e restaurantes.

A 170km de Belo Horizonte, tem-se ônibus diários em todos os períodos do dia saindo da rodoviária de Belo Horizonte, ao preço de R$57,00 a passagem. O serviço de Guia é estruturado na cidade e conta com apoio da Secretaria de Turismo, onde se fala com a Associação dos Guias pelo telefone 31-3868-2223.

Conceição tem orgulho de sua história e mantém ainda algumas de suas tradições. Uma delas é a confecção dos tapetes arraiolos, que tem na cidade uma associação. Lá é possível comprar os belos tapetes a preços bem mais em conta. O telefone da Associação é 31-99735-6563.

Outro orgulho de Conceição é o pastel de angu, quando se ouve dizer que ele nasceu ali. E todos sabem a história de cor e contam com orgulho que os escravos escondiam pedaços de carne e toicinho dentro do angu. Depois fritavam e comiam escondidos dos patrões nos dias de festas e comemorações. A verdade é que o pastel de angu é uma iguaria das mais saborosas da boa culinária mineira.

Capital Mineira do EcoTurismo

Pertencente a Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais, Conceição vem lutando para recuperar o propalado título de Capital Mineira do EcoTurismo, como ficou conhecida nacionalmente na década de 2000. Hoje está sendo estruturado no município a "Rota das 10 Cachoeiras", que é formada por trechos de estrada de terra e trilhas, que totalizam 28Km, percorrendo as cachoeiras mais bonitas do município. O percurso começa na Comunidade Quilombola de Três Barras/Cubas e margeia o Parque Estadual Serra do Intendente e o Parque Natural Municipal do Tabuleiro. O caminho poderá ser percorrido de “bike”, a pé ou a cavalo, atendendo a perfis diferentes de usuários, que podem optar por fazerem o trajeto em etapas de um, dois ou mais dias.

É nítido o envolvimento da comunidade e dos poderes no resgate do título e da vocação natural da cidade, privilegiada pelo braço do Espinhaço que delimita todo o município.

Situada a 60km da Serra do Cipó e 40km do Serro, Conceição busca agora servir de sede para quem quer se embrenhar nos passeios e caminhadas do Espinhaço e na história dos diamantes e do ouro, bem no meio da Estrada Real. A grande vantagem dessa proposta é que ganhamos todos, os turistas, a natureza, a história e a cidade.




A vida não é touch screnn

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 24 de julho de 2017


Pensava ser uma geração que só olha para baixo. Agora tenho certeza: é uma Era que só olha para baixo, para o celular, o próprio umbigo. Extasiados, tomados por um autismo pós-moderno, ficamos focados no mundo desfocado e virtual, contabilizando coisas que não têm importância e estão ao alcance apenas das pontas dos nossos dedos. Não sentimos mais o relevo, apenas clicamos. Tudo robotizado, quase um mundo separado, onde não se pode olhar para os lados, estender a mão, dar um abraço demorado. Tão pequeno que cabe na tela de um telefone.

Assim tem sido esse tempo virtual, em nuvem, nebuloso, sem o cheiro das coisas simples ou de um carinho preguiçoso. As casas se tornaram imensas lan houses, cada um em seu compartimento, seu mundo on line, falando com todos, menos com nós mesmo. É um tempo das coisas vãs, das conversas vazias, fugazes, da ausência do afago, da pergunta simples de quem olha nos olhos e lança um despretensioso “como você está?”. Estamos todos abduzidos por esse ‘tempo do tudo’ e não ‘do todo’.

Nas redes sociais, onde deveria ser o mundo das interações e trocas de experiências, encontramos os guetos virtuais, multiplicados e compartilhados em suas muitas versões e possibilidades. Tudo direcionado, reto, quando o aberto fica delimitado e se torna, espontaneamente, quase que privado. Nossas prisões internas, nossa primitiva necessidade de grupo, de pertencimento, exercem seu poder primitivo e nos conduzem ao mais amplo, planetário e intransponível encarceramento virtual.

Pelas ruas, caminhamos em linha reta, deixando claro que não queremos ir muito longe, pois o mundo raso que cabe em nossas mãos nos basta! É pouco, é desprovido de sentimento, de sutilidades, povoado apenas pelas coisas que não vivemos e que fazem nenhuma falta. Não estendemos mais as mãos por que elas seguram o celular. Falta poesia, falta cumplicidade, falta o abraço amigo em campos de trigo.

Um dia vi em uma cidade do interior, tarde da noite, jovens espalhados pela calçada de um pequeno prédio, à meia luz, olhando fixamente para o chão. Achei estranha a cena, pensei ser uma legião de drogados naquela pacata cidade. Quando alguém alertou: “eles estão utilizando o wi fi do escritório”. Estavam mesmo entorpecidos por aquele momento de viagens e conexões. Usavam assim sua solidão para falar com todos, falar com o mundo, o que não conseguem dizer para os que estão próximos. Esse é um tempo de silêncio e de insuperáveis distâncias. Assim os sentidos vão regredindo na mesma proporção que as palavras e suas descrições. É um tempo de contração do sentimento, do verbo e do verso.

É preciso ser livre para olhar para os lados, sentir o vento bater no rosto, escolher um caminho e seguir apreciando as cores da estrada. É preciso ser livre para exercer o poder da contemplação, com tempo para o coração. É preciso ser livre para sentir as coisas boas das horinhas de descuido e que enchem nossas vidas de sintilâncias e inutilidades. Além desse tempo, a vida vai, por dentro de nós, com nossos sonhos e carências mais infantis. Para nossa sorte, a vida não é touch screen.




Para o ano que vem

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 18 de janeiro de 2017


O ano começou velho: mortes, assassinatos, massacres. As pessoas começaram o ano como sempre foram e como sempre serão, prometendo, um dia, mudar. 2017 já é igual a 2016, como são iguais todos os anos, no calendário e dentro de cada um.

As promessas de parar de fumar, de beber menos, de maior tolerância às coisas deste mundo não resistiram à noite de réveillon e tudo se foi no ápice do estouro da garrafa de champanhe, com toda ânsia transbordando bem na palma da nossa mão. Fazemos listas e listas do que não faremos no ano novo, porque somos afeitos ao que somos e quase sempre nos tornamos tudo aquilo que nunca quisemos ser. Somos mesmo seres de vazio e adoramos falso preenchimento. Assim sempre fomos, desde depois de ontem. E assim seremos, na eterna hereditariedade das gerações.

Prostrados, como nosso país de joelhos, assistimos, desde o dia primeiro, o despetalar do calendário, o dia a dia caindo e sumindo pelo ralo. O que era ruim, ficou pior, como uma involução diária e precária em marcha batida dessa pobre sociedade brasileira. Em tempo de Temers & Trumps protagonizando os noticiários e ocupando as páginas da história, registramos a falta que faz os Mandelas com seus pensamentos em mandalas, o José entre outros tantos Magos, o Ariano e sua Suna compadecida. Escolhemos nossos líderes e entregamos a eles o comando de nossa vida em sociedade. É inevitável que o mundo tome a forma do pensamento deles, da personalidade deles, de suas ideias. É um tempo de tristeza, das contas diárias vencendo sobre à mesa, da incerteza batendo à porta vizinha e à nossa. É um tempo pesado demais e parece tolo simplesmente acreditar.

Está faltando ao mundo presente a generosidade universal, o desejo natural de mudança, a elevação do pensamento humano, da força motivadora do sonhar e ter a alma cheia de fé e esperança. Já não temos mais motivação para protestar, tudo foi vencido por homens decaídos. Está faltando ao tempo presente luz e os flashes são apenas para registrar o último assassinato de nossas esperanças.

Digito este texto com os dedos em chumbo pesando sobre o teclado porque tenho nada para acrescentar, nada que valha a pena dizer. Toda dor é solitária e nossas alegrias são feitas de pequenas migalhas. Escrevo este texto como uma oração silenciosa de quem pede e clama por mudança. Não a mudança da rua, essa que acaba na primeira esquina. Mas na mudança que acontece, nasce e cresce, dentro de cada um, no mais fundo da alma, e que é capaz de mudar o mundo à sua volta. Essa é a revolução que me interessa, o se elevar em outro patamar.

Assim nossa nave não vai, fica, mais empobrecida, corrompida, desnutrida e sem esperança. Nem bateremos mais nas panelas - cada vez mais vazias - bateremos nos tambores, pois, daqui a pouco, já é carnaval.




A traição como direito de Estado

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 21 de dezembro de 2016


Todo povo tem seu orgulho. O Brasil também tem o seu: ser o país das delações premiadas. Aguardadas com certo fastio, as divulgações das verdades ou versões contadas e depuradas em grampos e gravações - muitas delas ilegais - ganham divulgação imediata e compartilhada, em todos os meios, por todos. Nessa esteira de orgulho e satisfação nacionais, os delatores posam na TV como pops stars da traição, canonizados pelas nossas instituições que deveriam ser mais nobres, obtendo delas o perdão libertador.

O êxtase em flagrar o mal feito quase sempre é maior que a revolta pelo dano causado à nação, ao futuro comprometido. Isso se revela nas benesses concedidas ao delator, com salvas de herói caído de um povo. Primeiro foi o Joaquim - português originário - Silvério dos Reis, até hoje um nome bem brasileiro, sepultando os sonhos de um novo país, nascido do ouro e da honra que não se tinha, e apenas um foi levado à forca. Visando o benefício próprio, Joaquim entregou o seu amigo nos braços da morte, e nem foi preciso um último beijo na noite escura da traição. Se não fosse a coragem solitária de Tiradentes, a Inconfidência Mineira seria a mais longa e duradoura página da vergonha nacional.

Quase cem anos antes, Borba Gato, desbravador do mato, herói nacional, também fez a dele, revelando aos portugueses as minas de ouro do Sabarabussu, se livrando do desterro e da pena de crime de lesa majestade. Sua delação própria, confissão das conquistas da heroica bandeira primeira, possibilitou o povoamento das Minas Gerais, que culminou com uma guerra pátria, a dos Emboabas, e deu ao Estado que nascia e ao Brasil o sentido de nação. Indo ao encontro da alma delatora do povo que em Minas ainda não vivia, se deu o triste episódio que entrou para a história como o Capão da Traição, quando os novos mineiros, os vencedores, abateram os paulistas rendidos e vencidos.

Três séculos depois, as delações ideológicas levaram à prisão e à execração pública de Gregório Bezerra e Francisco Julião, por tornarem realidade um pioneiro projeto social e ideológico no nordeste deserto de ideias, de programas, de esperança, de história. Tudo isso, por terem feito a diferença, quando todos queriam ali, na extrema pobreza, sempre o igual. Ideologicamente acovardada, a nação de cócoras coroa o que sempre foi objeto de desprezo e indiferença aos povos: o delator.

O estado policialesco, desagregador, do medo; os privilégios àquele que vigia e denuncia, que grava a reunião em que ele é um dos atores, faz a insegurança nas convivências, faz um país menor, alicerçado no que pratica a traição duas vezes. Esse é também a base da nossa justiça, que avança na esteira da delação, encurtando assim o caminho do que deveria ser investigado e fartamente provado e comprovado, seguindo os trâmites legais do Estado de Direito, aquele que veio para substituir o Estado justiceiro. E a justiça nacional, em todas as suas instâncias, com aplausos de toda nação, pratica sua barbárie moral, institucional, ideológica; tudo isso, sem precisar de um truculento e obsoleto AI-5. Na premiada e premeditada delação, temos a alma da nação revelada. Vale lembrar que a etimologia da palavra companheiro é “aquele que come comigo”.




Para onde caminha a Humanidade?

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 05 de dezembro de 2016


Nós, ocidentais, temos uma visão equivocada do tempo, como se ele fosse uma linha reta, saindo das trevas e indo sempre em frente, na busca eterna pela luz. Isso nos traz um certo consolo, uma justificativa íntima para todas as nossas conivências e conveniências. Cíclico, o tempo nos revela em espiral, nos levando pelas curvas, subidas e descida da história, do tempo, da vida. Assim ficam mais compreensíveis as coisas deste mundo e nos dá a sensação e a convicção de que devemos estar sempre atentos, atentos e serenos na defesa diária da liberdade de expressão, do livre pensamento, no direito de ir e vir, de questionar, de buscar e apontar um novo caminho.

Muitos foram os momentos da mais profunda treva e da mais completa luz na história da Humanidade. Duradouros ou efêmeros, passamos por essas estradas ou pequenos atalhos na longa caminhada da existência humana sobre a face da Terra. Muitos foram os momentos que são de eterno exemplo e referência para todos nós, daquilo que se deve e que não deve ser feito, permitido, repetido. Nessa esteira, analisamos também os processos que levaram a períodos extremados, com reflexos para todo o sempre, daquilo que nunca mais deve se repetir.

As intepretações equivocadas desses períodos, sem uma clara visão do todo e das entrelinhas que os antecederam e os envolveram, são sempre utilitárias, prestando um grande desserviço às gerações e a plena compreensão de determinado momento vivido pelos povos do planeta, de todas as nações. O que vale destacar é que os períodos mais negros contaram não só com a conivência de grande parte da população envolvida, mas com a sua direta participação e aquiescência. Foi assim com a dor ensanguentada do Cristo; a escravidão secular, continental e transatlântica de todo um povo; as perseguições, invasões e genocídios da II Guerra Mundial; o golpe militar no Brasil e na América Latina; a invasão do Iraque, berço da Humanidade e cenário universal das histórias infantis; o ódio diário nas ruas ao que é diferente, ao que é novo, ao que não tem nome.

Os messianismos, o radicalismo desmedido, as intransigências em momentos das mais profundas crises sempre guiaram e justificaram as atitudes e decisões dos povos em situações difíceis, revelando uma mentalidade e consciência advindas das trevas, o lado de pouca luz que habita a alma humana. Ainda não rompemos com o umbilicalismo belicoso das cavernas, com os mais enraizados extintos primatas, os sentimentos segregacionistas dos bandos, das tribos, dos eleitos.

Saio para as ruas em busca de um novo tempo, como se ele existisse fora, habitando o mundo à minha volta. Busco aqui, ali e acolá. Ele não está. Vejo nas bancas de revistas as capas dos jornais, me assusto; paro e penso, diante da realidade que não desejo: apesar de toda arrogância, de toda prepotência, de toda ignorância e da falta de esperança, lá, nos confins do mundo, alguém irá ver o sol se pôr, e será belo!




Para os rios da minha aldeia

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 14 de novembro de 2016


Minas são seus rios. Se não fossem os rios, Minas não existiria. Sem o Ribeirão do Carmo, não haveria Mariana, a vila não seria rica e o Itacolomi seria apenas um fantasma desolado erguido sobre o silêncio, o tempo e a eternidade. Diamantina não seria nem Tejuco. O Serro do Frio apenas um entreposto rumo à Bahia e o sertão dos índios bravios. Não haveria Chica da Silva, nem Tiradentes. Sem seus rios, Minas seria o Sertão dos Cataguases, sem ouro, sem história, sem bandeirantes, sem nada. Os rios são a inconfidência mineira no mapa do tempo, tendo todo o ouro como testemunha.

Antes dos rios, a lagoa das esmeraldas fez o primeiro levante paulista sertão adentro, tendo como guia o paulista sexagenário e sua bandeira primeira, dando com os costados na região central do Estado. A lagoa ele encontrou, as esmeradas não. Borba Gato achou a montanha do Sabarabussu e o ouro existente entre ela e as águas do rio das Velhas. Minas não nasceu nas montanhas, mas nos rios, no fundo dos rios.

Sempre generosos, navegantes portugueses abasteciam seus navios com as águas doce do rio a mais de 20 quilômetros de distância do litoral do Espírito Santo, com a tripulação colhendo água potável no meio do mar, tamanha a pujança e força do rio que não existe mais. Serpenteando, as cidades mineiras seguiram o leito dos rios, servido dele enquanto o matavam, aos poucos. As casas eram e são construídas de costas para eles, negando a beleza do rio, destinando a eles a indiferença, o esquecimento e o lixo diário. As crianças sabem o valor do rio, mergulham na alma deles. Adultos, passam a ignorar o bem que um dia foi deles.

Todos os dias depositamos nos rios do Brasil a nossa parcela diária de culpa, exatamente do tamanho de nossas possibilidades. Confinados, muitas vezes tem seu curso alterado, refletindo diretamente no ciclo de vida de seus peixes, aqueles que fazem a vida do rio. O que as mineradoras fazem com os rios é o mesmo que nós, cidadãos brasileiros, fazemos diariamente.

Nos arredores dos grandes centros, os pomposos condomínios fechados são construídos, em sua grande maioria - com a plena autorização dos órgãos competentes -, em áreas de nascentes, aquelas que deveriam abastecer com água saudável e potável as grandes cidades. Tudo feito de forma quase sempre legal.

Como se não bastasse o crime contra o rio Doce, tramita na Assembleia Legislativa de Minas Gerais o Projeto de Lei nº 3614/12, que legaliza a exploração dos poucos rios que são protegidos por Lei, considerados como preservação permanente, por serem fontes de vida, beleza e de lazer para a população. Os rios de preservação permanente, protegidos pela Lei nº 15.082/2004, são aqueles com excepcional beleza com claro valor ecológico, histórico ou turístico, fonte da vida silvestre em áreas preservadas ou com poucas alterações. E é exatamente com isso, a excepcional beleza, o valor ecológico, a vida em sua forma mais pura, que esse Projeto de Lei quer acabar, se utilizando da frágil justificativa de "interesses públicos" e a "necessidade de desenvolvimento do Estado".

Os rios são poucos, mas as “samarcos” são muitas: infelizmente!




A grande saga do Rosa

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 08 de setembro de 2016


Não é o caminho, é a caminhada; ensina João Guimarães Rosa na voz do Tatarãna. O caminho está lá, no sertão infindo. A caminhada não, essa se dá dentro da gente. Muitos já passaram e vão passar por ele, poucos vivenciaram o que Guimarães captou naquele trajeto de 240 km, desde a partida com a lendária comitiva da improvável fazenda Sirga, região da represa de Três Marias, centro-norte mineiro, à chegada ao imponderável, na fazenda São Francisco, região de Araçaí, porto do que não existiu. Era maio do distante ano de 1952.

Durante dez dias, Guimarães Rosa montado no lombo da mula Balalaika percorreu ao lado de dezoito vaqueiros um percurso inusitado, cerrado mineiro adentro, onde adormecem nas veredas as coisas que existem e não tem nome, o sertão dentro e profundo, o infinito materializado. Naquela inesperada viagem, alguns reis a cavalo ao seu lado, como o mago Manuelzão – o capataz; Bindóia – o tocador de berrante e Zito – o cozinheiro.

João Guimarães Rosa foi mais um, guiando a boiada de cento e oitenta bois para uma viagem cósmica, translúcida, aquela que se vê e não se pega, aquela que está além, mas faz parte da paisagem. Hoje o caminho é roteiro turístico, institucionalizado, ou seja, existe para não ser. O que Rosa buscou foi um não caminho, para dar nome ao que existia, se sabia, mas não se traduzia. Só os gênios têm esse poder, porque chegam antes da divindade e decifram o grande milagre da vida, que só ocorre quando ela não se faz dividida.

Foi lá, no meio das árvores que se contorcem na dor de existir e não quebram, nas flores que brotam da casca dura e oca das cigarras, que ele sentenciou: “nada está terminado”. Imagino que ele assistia às primaveras repetidas nas flores depois de abril, quando tudo é silêncio e distância. A travessia é isso. O fim no começo. O que se revela depois do caminho trilhado, quando nada do que se buscou foi encontrado. A caminhada é apenas isso, um reencontrar renovado com o inesperado, esse deus de pequenos milagres que só existe no que não foi pensado, no que não está definido.

O que hoje lá vive é apenas o vento que passou e não pousou, o ‘fantasma desolado’, o que não vive aqui e nem lá, mas enche nossa vida de fé e esperança. Lá, exaustos de tanto sol, Riobaldo e Diadorim encontraram abrigo no sem fim, nas dobras da história, e se amam no cio das noites sem lua. O romance deles - que hoje nos pertence - está lá, inteiro, de janeiro a janeiro, declarado e estendido sobre a paisagem, palmilhado nos olhos de Diadorim que de tanto ver o céu, tornou-se jardim. Por isso, não o podemos ver, muito menos sentir, apenas ouvir nas madrugadas de ventania suas vozes que se fundem com a aurora, para renascer no amanhecer de outra história, essa que não está escrita e grita dentro de todos nós, que amamos o universo do Rosa, o encantado.

Talvez sua maior obra seja essa; ser sem estar. Estar em tudo e não se encontrar em nenhum lugar. Com a graça de Deus. Travessia.




“José Aparecido de Oliveira - O Melhor Mineiro do Mundo”

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 13 de junho de 2016


Começa a ser lançado pelo Brasil o livro sobre a vida e obra de um dos maiores brasileiros de todos os tempos, o político mineiro José Aparecido de Oliveira. Organizado pelo jornalista mineiro Petrônio Souza Gonçalves, o livro perpassa por toda trajetória de José Aparecido de Oliveira, desde a infância no interior de Minas até a criação da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, estruturada quando Aparecido foi embaixador do Brasil em Portugal. A edição teve o apoio cultural da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM.

O livro aborda ainda as muitas facetas de Aparecido, que por mais de meio século exerceu o poder com influência determinante no Brasil. A que se destacar que poucos homens públicos exerceram por tanto tempo tanto fascínio no meio político, social e cultural do país, com tanta originalidade e personalidade.

José Aparecido dizia que um povo sem cultural é como um corpo sem alma. Ele foi o primeiro secretário de Cultura de Minas Gerais, no governo de Tancredo Neves, e o primeiro ministro da Cultura do país, no governo de José Sarney. Quando governador de Brasília, retomou o projeto original de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e foi o responsável pelo tombamento da capital federal pela UNESCO, sendo Brasília a primeira cidade criada e tombada no mesmo século em todo o mundo. José Aparecido foi conhecido em vida como o ‘Zé de todos os amigos’.

O livro além de depoimentos traz artigos assinados por pessoas ligadas a Aparecido durante toda a vida, como Oscar Niemeyer, Ziraldo, Mauro Santayana, Sebastião Nery, José Maria Rabelo, Aristóteles Drummond, entre muitos outros amigos de José Aparecido de Oliveira. Fatos da vida particular de José Aparecido, até então desconhecidos, também são abordados e revelados no livro.

Vale lembrar que foi de Aparecido o argumento final para Itamar Franco aceitar ser vice de Collor, quando Itamar desejava mesmo ser vice de Brizola. Esta e outras histórias estão contadas com detalhe no livro. Outro fato narrado na obra foi o encontro de Zé Aparecido com colunista Antonio Maria, que todos os dias falava mal de Aparecido em sua coluna. Quando os dois se encontraram pela primeira vez na noite do Rio de Janeiro, Zé Aparecido se recusou a cumprimentar Antônio Maria, dizendo que o colunista falava mal dele sem o conhecer. Antonio não perdeu a piada e disse: “É por isso mesmo que falo mal, pois se eu o conhecesse, seríamos amigos e eu só falaria bem de você”. Os dois se tornaram amigos da vida inteira, sendo a amizade com Maria compartilhada por toda família de Aparecido. O livro tem 230 páginas, com fotos dos principais momentos da vida do lendário político mineiro.




Um viaduto no meio do caminho

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 07 de junho de 2016


Toda cidade é um museu a céu aberto, um rosário de lembranças em contas de cada esquina. Algumas, pelo descaso de seus governantes e a omissão de seus cidadãos, um rosário de tristezas e decepções. Outras, uma exaltação diária à história e à memória daqueles que a construíram e a mantém de pé. Belo Horizonte, que nasceu como uma cidade projetada, não tem uma raiz natural de seus primeiros habitantes, seus primeiros anos. Mas tem monumentos erguidos com a lembrança de quem começou a conviver com a cidade e construiu uma relação de amor com ela. Suas ruas que cruzam e descruzam em todos os sentidos, são testemunhas desses encontros, além do tempo.

Símbolo da capital mineira e referência de sua arquitetura, o Viaduto de Santa Tereza talvez seja o monumento mais representativo, entre todos. Três gerações passaram pelos seus arcos, as melhores que um país pode ter. A primeira foi a de Carlos Drummond de Andrade e o lendário grupo Estrela, formado também por Emílio Moura, Pedro Nava, Gustavo Capanema e Milton Campos, que do alto do viaduto assistia o sol nascer ao longe, com seus raios escorrendo a poesia urbana pelas ruas da capital de todos os mineiros. Drummond morava na Floresta, na Rua Silva Jardim, e o viaduto era uma pedra no meio do seu caminho, uma pedra preciosa, onde ele se sentava e divagava sobre as coisas deste e do outro mundo. Imagino que muito de seus versos nasceram ali, distraidamente.

Depois, veio a turma de Fernando Sabino com seus profetas do apocalipse, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, que do Viaduto mirava o infinito e via o futuro com suas previsões improváveis. Fernando fazia questão de destacar em suas entrevistas os feitos de sua geração ao escalar o umbral do Viaduto de Santa Tereza.

Poucos anos depois, veio a turma de Lô Borges e do Clube da Esquina, que depois de algumas incursões na noite belorizontina do centro, voltava para Santa Tereza, inspirados pelos arcos suspenso no universo aberto, para fazer história cantando em suas esquinas a canção que agora é de todos nós.

Hoje, olho para o Viaduto de Santa Tereza e vejo ‘seu fantasma desolado’ no horizonte alquebrado da capital mineira. Onde havia poesia, há apenas sustos e assaltos. Onde havia música, hoje há buzinas e desilusão. Onde havia uma visão de mundo e divagações, hoje há apenas tapumes e a certeza do que não existe mais. Lá em baixo, como silenciosa testemunha de nosso tempo, onde passava um rio, escorre apenas o lixo humano produzido no silêncio de nosso lar.

Como uma crua e dura paródia moderna, o Viaduto histórico e cultural tem hoje um sistema de iluminação improvisado, dentro de seu esqueleto exposto com todas as suas chagas, uma vergonha urbana e humana para todos nós. Não tem mais poesia, não tem mais música, e nenhum ‘auto passará sobre seu cadáver’, enquanto nós, com nossa omissão diária, velamos, todos os dias, seu corpo insepulto na nossa pobre tarde vazia.




A cultura e a alma de um povo

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 16 de maio de 2016


José Aparecido de Oliveira foi o primeiro secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais e o primeiro ministro da Cultura do Brasil. Dizia que um povo sem cultura é como um corpo sem alma. Foi pioneiro na conscientização da defesa do nosso patrimônio artístico e arquitetônico, e na defesa permanente da cultura e da arte brasileira. Vislumbrou o Ministério da Cultura quando lançou, de forma inédita no Brasil, a campanha em defesa do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade do Serro, em 1974, com ampla divulgação pelo país, ganhando apoio e incentivo do grande historiador nacional Hélio Silva, do grande arquiteto nacional, Oscar Niemeyer, e do grande cartunista nacional, Ziraldo. Muitos se juntaram ao seu pioneiro movimento, que culminou com um grande ato em praça pública no Serro, no ano de 1975. Para lá rumaram em precária estrada de terra os maiores nomes da intelectualidade brasileira, para fazer um grande comício em defesa do nosso patrimônio artístico e arquitetônico que definhava, um verdadeiro ato público pela cultura brasileira, isso tudo em plena Ditadura. Sua presença foi tão marcante nesta campanha que até um ministro do governo militar se fez presente, Severo Gomes, sendo José Aparecido de Oliveira um político cassado pelo Golpe de 1964.

As ruas do Serro, as montanhas de Minas e os degraus da igreja do Carmo assistiram a bela solenidade naquele improvável ano de 1975, quando foi gravado em pedra e enterrada em sua escadaria uma urna contendo os jornais da época, revistas, fotos, editoriais e documentos daquele movimento pelo tombamento do patrimônio histórico do Serro. Era o início de tudo...

Pouco tempo depois, sendo ele o segundo deputado federal mais votado por Minas Gerais nas eleições de 1982, negociou com o novo governador de Minas, Tancredo Neves, a criação da Secretaria de Estado de Cultura, pensando sempre em cuidar da alma do povo das Minas, que via seu legado histórico e cultural sendo consumido pelo tempo.

Como secretário de Estado, congregou as várias entidades culturais do país, que culminou no Fórum Nacional de Secretários da Cultura, quando foi lançada a pedra fundamental do Ministério, chegando ao presidente João Batista Figueiredo a sugestão de que o ano de 1985 fosse decretado como o Ano Nacional da Cultura, o que foi aceito pelo último presidente militar do Brasil. O Fórum foi fundado com a ajuda de Darcy Ribeiro, que a exemplo de Minas criara a secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro.

Depois da eleição de Tancredo Neves como presidente da República, José Aparecido de Oliveira levou para o Planalto Central a experiência exitosa da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, fundando assim o Ministério da Cultura, sendo ele o primeiro ministro. Seu projeto inicial implantava centros culturais comunitários por todo o Brasil, colocava na ordem do dia a restauração de prédios históricos e das grandes estações ferroviárias do país, criou a Assessoria de Assuntos de Cultura Negra e a Assessoria de Assuntos da Cultura Indígena, imaginando interligar as várias matrizes da cultura brasileira, sabendo ser ela fundida em uma só.

Trinta anos depois, o Brasil tornou-se um país sem Ministério da Cultura, como um corpo sem alma.




Um dia; sem adeus

Crédito/fonte: Petrônio Souza Gonçalves - jornalista e escritor - Data: 02 de março de 2016


Hoje voltei ao bar no centro de Belo Horizonte para ver se ela ainda estava lá; me esperando. Estava! Dezesseis anos depois ela ainda estava lá, com seus olhos de menina fumegando as coisas que trazia por dentro. Nas mãos os mesmos ideais e o livro com os 12 signos do zodíaco estampados na capa, em nossa juvenil busca cosmológica tentando saber uma pouco mais sobre nós mesmos. Estava confuso naquela tarde lúdica, para o encontro em local improvável, com ela repetindo o endereço pelo telefone, para minha parca compreensão de menino vindo do interior sem saber os caminhos dos encontros no centro da capital de todos os mineiros. Era no segundo andar.

Subo as escadas do tempo e me deparo com o seu sorriso, como na primeira vez, pairando por sobre as horas, por sobre as eras. Era o mesmo riso. Ela estende os braços, me toma pela mão e descortina a paisagem, apontando com o dedo o horizonte concreto: “Viu como é bonito, é diferente!”. Como poderia ver algo se apenas via a sua beleza à minha frente, se apenas enxergava seu sorriso refletido dentro de mim?! Ela espera por um segundo, sabendo que fui no mais fundo de mim para emergir e poder voltar à realidade, à lucidez do dia que me embriagava, que me aprisionava, para todo o sempre: “Érica”, esse era o nome dela, “como você descobriu isso aqui?”. “Pois é, aqui estamos no centro e podemos conversar sossegados”. E conversamos, conversamos, conversamos, nos embrenhamos em nossos segredos, em nossos mistérios. Na verdade, estamos conversando até hoje, divagando sobre os signos do zodíaco e os equívocos da vida de quem vive sem céu. Nos questionávamos, nos indagávamos, e nossa tarde se foi como um mergulho nas mazelas da pobre alma humana, em nossa surda busca por nossa paternidade, inspirados por um estranho desejo de sermos diferentes, de não sermos daqui, finalizando junto com o dia que não era mais luz. Foi o nosso último encontro.

Muito tempo se passou e eu buscando seus sinais nas noites sem lua, seus passos sem vestígios marcados na palma de minha alma. A última notícia que tive é de que estava morando em Recife, talvez trabalhando em sua área, engenharia química. Quando penso que a esqueci, sonho com ela, como na imagem que primeiro vi, a menina de olhos verdes e cabelos loiros encaracolados, com um gorro na cabeça, se protegendo do frio mundo moderno.

Hoje, tantos anos depois, me reencontro com ela, na verdade, comigo mesmo, na tola tentativa de me resgatar, encontrar com o que ficou de mim naquela mesa de bar, sem bebida. Sei do muito que ficou ali, no mesmo lugar, implorando para viver o que não existe mais. Ela está na minha frente, linda, divina, exatamente como na última vez. Pena; hoje não vamos poder conversar.




Atenção: O conteúdo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna, este sítio não tem responsabilidade legal pela opinião, o que é exclusiva do autor.

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